A cliente entra no meu escritório, larga a bolsa com toda a força na mesa. Eu digo "bom dia" e ela responde assim:
-Seguinte: eu não gosto de vídeo. Não quero vídeo desse meu evento. Não imagino como esse evento pode ficar bom no vídeo. Não quero vídeo de jeito nenhum. Não sei pra quê vídeo.
-Ok. Eu também não sei, nem sei que evento é esse.
-É um festa do jornal que trabalho, fiquei responsável pelo registro em foto e vídeo.
-Ok. O que você precisa, o que você quer, EXATAMENTE? Vou tentar te ajudar.
-Eu quero e preciso de foto. Não quero e nem preciso de vídeo.
-Ok, então por que você me procurou? Eu faço vídeo, você sabe, né?
-Sei sim.
-E... (tento adivinhar, mas juro que não consigo).
-Eu não gosto de vídeo, entendeu?
-Isso já tá bem claro. Você praticamente odeia vídeo.
-Isso, odeio vídeo.
-Até eu já tô odiando vídeo.
-Então.
-Deus me livre gostar de vídeo. Era só isso?
-Não, é o seguinte: como eu não gosto, eu nem queria vídeo, você pode fazer a cobertura do evento por R$ 500? Com duas ou três câmeras, talvez? E me entregar editado, em 10 cópias Blu-Ray?
-Não, não posso.
-Mas eu não vou gastar mais que isso, eu nem queria vídeo.
-Já entendi que você odeia vídeo e não queria vídeo, mas isso não muda o preço do meu trabalho.
-É que por mais que isso, eu não faço.
-Percebi.
-R$ 550, no máximo. Eu consigo 550.
-Mas você vai gastar essa fortuna com algo que você não quer, não gosta, odeia? Faz isso não.
-O que você pode fazer com 550?
-550?
-É.
-Só a "saída" do meu equipamento básico é 400, minha senhora. Só o equipamento, básico, sem o profissional.
-POOOOORRA! Quatrocentos?
-É.
-Mas é de ouro essa câmera?
-A lente é de diamante.
-Diamante?
-Isso.
-Nossa, então a imagem é boa.
-É sim.
-Mesmo assim, eu não gosto de vídeo, não queria. A tua câmera de diamante eu compro pelos 400 então e ponho alguém pra filmar.
-Não, minha senhora. A senhora não entendeu, mas vou explicar.
-Se a câmera é 400, você não faz todo o trabalho por 150? Aí dá 550.
-Calma, minha senhora.
-Olha, eu só pago 550, eu devo sair cedo da festa, mas depois você deixa a câmera com meu assessor.
-E meu rabo, deixo com quem, minha senhora?
-Quê?
-Nada não. Foi só um lampejo de dignidade.
-Olha, é pegar ou largar.
-Eu largo.
Vida de Profissional Audiovisual - II
inutilmente rascunhado por
fofolete
on quinta-feira, 13 de outubro de 2011


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