Nos últimos tempos, visitei o Grande Precipício da Alma. Fiquei lá um tempo, digerindo a grande frustração pessoal-musical que me tomou de supetão. Grande frustração por nunca poder me dedicar à Música o quanto quero. Nestes momentos, me torno um campo aberto, um pedaço de carne exposto aos vermes, um terreno propício para qualquer angústia florescer meio ao adubo.
Depois de ler um livro do Mario Vargas Llosa e agora lendo seus textos teóricos, constato, com certa revolta comigo mesmo (que inevitavelmente converte-se em frustração), que eu poderia e deveria ter me dedicado mais às formas de arte e criação que aprecio desde cedo. Por desvios inerentes à vida, nunca fui até onde poderia ter ido na Música ou na Literatura. E agora, aos 33, a sensação de perda torna-se assombrosamente presente. Principalmente porque os desvios não são pretexto; daí a revolta. Afinal, "pra quem está perdido, qualquer desvio é caminho". Mas eu não os fiz caminhos, os fiz desencontros. Me resta buscar nesse enorme desvio-descaminho, minha matéria prima.
Enfim.
Dois textos do Llosa são ótimos: "A Parábola da Solitária" e "O Catoblepas", ambos de "Cartas a Um Jovem Escritor". O primeiro trata mais da dedicação ao ofício de escrever. O segundo, do processo complexo da origem das histórias contadas por quem escreve. Os dois textos me falaram muito, e me cabem não só em relação à Literatura, mas também à Música, ou qualquer arte, qualquer criação, qualquer coisa. Procurei o texto na íntegra na internet para colocá-lo aqui, mas não encontrei.
Enfim.
Ser um catoblepas. Engolir uma solitária.


8 Comentários:
pós-post:
encontrei o texto neste blog (muito bom o blog, por sinal):
http://emtornodaescritura.blogspot.com/2010/05/parabola-da-solitaria.html
Do Grande Precipício da Alma eu saltei.
Cara, não se fruste, de acordo com a expectativa média ao nascer para homens em 1980 (dado mais antigo da série do IBGE, já que você tem 33) era de 59,7 anos.
Faltam 27 anos! Faça já a sua escolha!
:P
A visita ao Grande Precipício da Alma traz algo de bom: a saída de lá; aquele sentimento de renascer da tristeza. A gente vai se conhecendo melhor com as frustrações, vai aprendendo a fazer escolhas. Cave um buraco de tempo livre pra preencher com o que gosta de fazer. A vida é assim mesmo, cheia de desencontros.
Fófis me socando a boca do estômago ou "você não está sozinho".
Olha... sei como é viu.
Sinceramente continuo buscanto alguma forma de me dedicar ao oficio da música. Por mais que eu gosto das areqs de exata que por fim se tornaram ganha pão. Se eu tivesse um escolha seri a música.
é a vida que escolhemos, né, Pupi (ou ela nos escolheu)? a gente não faz música pra viver, a gente vive pra fazer música.
Pára... Quer montar uma banda? É sério, pero no mucho.
agradeço o convite, ricardo, mas já tenho banda, e uma que é muito, muito, muito foda, o problema é tempo pra me dedicar a ela mesmo...e tempo pra escrever, também.
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