Não saio daqui. Adoeci. Tem nome a doença, mas não sei qual, por isso a chamo "Cristina". Fica melhor assim. O que ele tem? Tá na cama com Cristina. A doença é da cabeça, dizem. O médico explicou, não entendi. Mandou-me à cama. Não sei bem se é médico, mas o chamo doutor. Usa branco. Se não for médico, talvez seja dentista, mas não caberia a um profissional dos dentes mandar-me à cama. Ainda que fosse preciso arrancar-me todos os que carrego na boca , não seria o caso de passar tanto tempo assim na horizontal. E se me arrancassem um a um, eu nem sentiria. Sou imune à dor, desde pequeno. Eu nunca chorava, dizia minha mãe. Você não chora nunca, menino. Cortava-me nos espinhos das plantas, ralava-me nos muros, fodia-me todo, mas não chorava. Sem dor. Uma vez, João desceu-me a porrada. João era um vizinho, briguento, o maior menino da rua. Era magro, mas muito alto, e tinha mais força que todos os outros. Um dia jogávamos bola e sem querer enfiei-lhe o pé na canela. João avançou e fomos ao chão. Me acertou sete socos na fuça. Como eu não os sentia, só me restava contá-los. Depois de tantos socos, qualquer garoto já estaria chorando. Não eu. Quando ele parou, eu olhei nos olhos dele - bem no fundo mesmo - e ele não viu uma lágrima que fosse saindo dos meus. João ficou puto. Bateu-me mais ainda, dessa vez, nove socos. Contei de novo. Fiquei todo ensanguentado. Quando parou, quem chorou foi ele, de raiva. Nunca mais respeitaram João. O soco do João era só um sopro.
Agora eu fico aqui, o resto de mim, um sopro do que fui. Me dão remédios, pra Cristina. Eu tomo. Sei que me contam como louco, só não me importo. Tem uma gaiola no meu quarto, e um passarinho nela. Azul. Ele canta toda manhã, bonito. A enfermeira vem todo dia, vestida de branco. Dona Paula. Ela é calada, feia, carrancuda e velha. Antipática, nunca sorri. Pela manhã, me traz uma xícara de chá, duas fatias de pão com manteiga, uma maçã e os remédios. Abre as cortinas e deixa o sol entrar. Lá fora eu vejo árvores, verdes, algumas com flores amarelas. Talvez por obrigação, ela sempre me pergunta se quero dar uma volta, mas quando saio, sinto-me pequeno e encolhido, como uma formiga. As formigas trabalham muito, e eu não quero trabalhar. Um dos motivos de aceitar que me tomem por louco é não ter que trabalhar. Eu estava cansado. Depois a enfermeira liga a televisão e vai embora. A TV está quebrada, não liga com o controle remoto, só na TV mesmo. Hoje assisti Snoopy, o pequeno cão voava em cima de sua casa, como se fosse um avião. Mais tarde, ela traz o almoço e a sobremesa. Pudim de chocolate. Meu dia não muda muito, até a hora do jantar e de dormir. Às vezes, o pudim é de leite, às vezes o doutor vem me visitar. Eu prefiro o de chocolate. O doutor faz perguntas, olha meu olho com uma luz, muda meus remédios. Como está a Cristina hoje, ele me pergunta. Outras vezes, a família vem me ver. Minha mãe, sempre preocupada, procura machucados em mim. Como não sinto dor, posso me machucar e não saber. Depois, as visitas se vão e demoram a voltar. Ficamos eu e o Snoopy, o pequeno cão voando em cima de sua casa.
O passarinho azul canta. Ela entra. Cabelos pretos, vestido branco. Nunca a vi antes. Deve ter uns vinte e poucos anos. Vinte e seis, eu chutaria. Cantarola uma canção, uma dessas de criança. A do peixe. Olha pra mim. Como pode um peixe vivo?
-Oi, sou sua nova enfermeira.
-Oi.
-Trouxe seu café da manhã. Chá, pão com manteiga e maçã. E seus remédios.
-Brigado. O que aconteceu com a outra enfermeira, a Dona Paula?
-Ela precisou sair de férias, alguém doente na família.
-Ela foi cuidar dos doentes dela agora.
-É, acho que sim.
Com as duas mãos, pego a xícara de chá e tomo bem devagar. Viro a xícara enquanto a observo, parada, me observando.
-Você poderia abrir as cortinas, por favor?
-Ah, claro, desculpe.
Ela abre. A luz do sol invade o quarto, passando por ela antes de chegar a mim, me trazendo seu cheiro. A luz também revela suas formas por baixo do vestido branco. Mordo a maçã, enquanto a observo.
-Você não vai comer o pão?
-Ah, verdade, esqueci o pão. Pulei uma etapa.
Ela sorri. Senta-se na poltrona de frente para a cama enquanto termino minha maçã. Não vou comer o pão hoje. Tomo os remédios com o resto do chá. O passarinho canta, bonito. O que será que ele canta? Ela liga a televisão e põe no Snoopy. Pergunta se quero mais alguma coisa, digo que não. Ela está de vestido branco, mas não é dentista. Sai cantarolando outra música de criança, a do balão que cai aqui na minha mão. Antes de fechar a porta, ela se vira.
-Ah, meu nome é Cristina.
******************************************************************
Passo as horas até o almoço pensando em Cristina, não na doença, mas na nova enfermeira. A cada dia que se passa, os pensamentos aumentam. Assisto Snoopy, mas penso em Cristina, sempre. A enfermeira, não a doença. Nos dias que se seguem, começo a acordar sozinho, antes dela chegar. Permaneço deitado e aguardo que ela venha abrir as cortinas para que eu sinta seu cheiro misturado à luz do sol. O melhor momento do dia, quando consigo ver seu contorno dentro do vestido branco.
-Bom dia! Trouxe seu café da manhã.
-Brigado, Cristina.
Ela sorri. Seus dentes são perfeitos. Antes de por a bandeja na cama, observo seu seio. Ela nota e se atrapalha, tropeça. A bandeja cai em mim. O chá, direto na minha cara.
-Ai, meu deus, desculpa!
Ela se apressa para ver se estou bem, e começa a soprar meu rosto. Seu sopro é suave, macio. Apesar de não sentir dor alguma, fecho os olhos. Não falo nada, apenas sinto seu sopro. O mundo todo vira câmera lenta. O sopro é delicado, uma brisa. Levemente, começo a sorrir. Ela pára de soprar e me olha, surpresa.
-Não tá doendo? Não queimou? Você tá rindo?
-Eu não sinto dor. Pensei que tivessem te falado.
-Nossa, eu tinha esquecido. É o costume.
Penso se ela realmente é enfermeira ou se apenas a vestiram de branco para cuidar de mim. Ela fica em silêncio e me observa por alguns segundos e depois dá um tapa na minha cara.
-Não senti nada.
Começamos a rir.
-Já ouvi falar, mas nunca tinha visto. E eu aqui pensando que você tinha se queimado todo. Quer dizer, você tá queimado um pouco, mas não deve ter sentido nada. Você não sente dor mesmo?
Pego a xícara de chá vazia e quebro na minha cabeça. TLECT!
-Não.
Primeiro ela se assusta e arregala os olhos, dá um pulinho. Depois cai na gargalhada.
-Parecia Os Três Patetas!
Rimos mais. Enquanto ela ri, seu seio balança. Quero morder. Não posso. Mas quero. Como me tomam por louco, talvez eu devesse. Eu quero. Que diferença faria? Mas aí Cristina iria embora e eu ficaria sozinho aqui, com Cristina. A doença.
-Meu Deus, preciso limpar tudo isso. E acho que você vai ter que tomar banho cedo hoje.
Eu tomava banho sozinho, e ela já sabia disso. Ela limpa tudo e vou ao banho. Os remédios foram todos ao chão. Não os tomo hoje.
******************************************************************
Acordo de pau duro. Isso não me acontecia mais. Não tomei os remédios ontem, talvez seja isso. Sinto-me estranho. Não sei se melhor ou pior, só estranho. Sinto meus dentes esquisitos, como se fossem plantados. Apenas os sinto, ali, me lembrando que habitam em mim. É como se tivessem aparecido hoje, corpos estranhos à minha boca, invasores. Passo o dedo neles. O passarinho azul canta. O canto do pássaro mistura-se com outro que vem do corredor. Sapo Jururu na beira do rio, com frio. Cristina entra. Por um momento, posso jurar que está nua, mas a ilusão logo se desfaz.
-Bom-dia!
-Bom-dia, Cristina.
-Como estamos hoje?
-Estamos bem.
Ela abre as cortinas, o melhor momento do dia. O contorno, o cheiro, o seio, os dentes.
-Hoje vou tomar cuidado pra não derrubar nada.
Sorrio. Tomo meu chá, como meu pão, minha maçã. Ela fica ali, como sempre, na poltrona, observando.
-Você pode ligar a TV?
Quando ela levanta e se vira para ligar a TV, escondo os remédios embaixo do travesseiro. Quando se vira de volta, faço o movimento de levar a mão à boca, fingindo tomá-los. Tomo o último gole de chá. Ela sorri, pega as coisas e vai embora. Tiro os remédios debaixo do travesseiro, levanto e os dou ao passarinho azul. Ele come, no ato. Talvez ele cante de solidão.
Na hora do almoço, Cristina volta. Canta outra de suas canções de criança. Nesta rua, nesta rua tem um bosque, que se chama, que se chama Solidão. Não há sol, mas sinto seu cheiro. Seu seio, de novo. Seus dentes. Ela me olha, parece diferente, parece que estou dentro de seus olhos. Eu sou sua pupila, penso. Sinto sua pálpebra se fechando, me abraçando.
-Trouxe seu almoço.
-Brigado.
Ela senta e observa. Olha o passarinho também.
-Ele só canta de manhã?
-Só. Deve ser pra me acordar.
-É bonito esse azul dele.
-É mesmo. Eu queria saber o que ele canta.
-E será que ele sabe?
-Como assim?
-Ele só canta.
-Só canta?
-É, ele é um passarinho, sua função é cantar. Canta porque é um passarinho, os passarinhos só cantam e voam, e como ele não pode voar, preso nessa gaiola, ele canta.
Olho para o passarinho. O azul é lindo mesmo.
-Não acho que ele cante só por cantar, só porque é um passarinho.
-Por que ele canta então?
-De solidão, eu acho.
Ela olha o passarinho.
-Que triste. Prefiro pensar que ele canta porque é um passarinho.
-Sei não. Isso sim me parece triste, fazer algo só porque é sua função.
-Todo mundo tem uma função.
-E qual é a sua?
-Cuidar de você.
Olho seus olhos, eu dentro deles, posso me ver ali. Ela pisca, em câmera lenta. Primeiro, sinto a sombra dos seus cílios se aproximando e tudo vai escurecendo, depois sua pálpebra me cobre e me sinto quente, acolhido. Então ela abre os olhos e posso ver a luz.
-Deve ser esquisito esse negócio de não sentir nada.
-Eu sinto coisas. Só não sinto dor. Não sei explicar, é um caso raro. Eu sinto se me pegam, se me tocam, sinto o quente, o frio, sinto as coisas, mas quando são coisas que doem nos outros, não doem em mim, eu só as sinto, estão ali. Acho que eu não sei o que é dor, já que nunca senti. Quando eu era pequeno, minha mãe tentava me explicar o que era, eu nunca entendia. Fui crescendo e entendendo, mas não sentindo. Só sei o que é dor na teoria.
-Você é uma espécie de super-homem.
-O Super-Homem nunca se machuca. Eu me machuco. Só não sinto. Isso é até perigoso, e nem sempre é vantagem. Quando era moleque, me machucava e não sabia, quase morri algumas vezes. A vida fica difícil, exige cuidados extras. Uns médicos me disseram que a dor é uma manifestação de que você está vivo. Se eu não sinto dor, uma parte de mim não está viva.
-Credo, que horror.
-De certa forma, sempre estive meio morto.
Ela se cala. Olha o passarinho azul. O quarto fica triste. Termino o almoço calado. Ela observa. Por último, tomo os remédios. Ela pega tudo e sai. Cuspo os remédios, levanto e dou ao passarinho.
- Você tem passado muito tempo sozinho aqui, né, passarinho?
O passarinho me olha. O quarto todo fica azul. Me pergunto porque Cristina-enfermeira canta as canções de criança. Talvez ela seja mãe e cante para seu filho. Ou talvez ela cante por solidão.
Passam-se algumas horas, resolvo sair do quarto. Desço as escadas, tudo é silencioso. Eu mal consigo lembrar das vezes que saí do quarto desde que estou com Cristina. A doença, não a enfermeira. Sentia medo, mas hoje não sinto. Ouço vozes. Chego na sala, é a TV ligada. Cristina-enfermeira assiste uma novela.
-É novela?
Ela se assusta e pula do sofá.
-Nossa, que susto! Nem te vi chegando!
-Desculpa, eu quis sair um pouco do quarto.
-Me disseram que você quase nunca sai de lá. Umas duas vezes só, desde que começou o tratamento.
-É...
-O senhor tá com fome?
-Não, acho que não.
-O senhor sente fome?
-Claro.
-Mas fome não é dor?
-Cacete, não sei. Esse negócio às vezes me deixa muito confuso.
-Foi por isso que o senhor ficou doente. Ficou confuso, né?
-Não sei. Acho que sim. Posso ver TV com você?
-Claro. Quer dizer, acho que pode. Não me instruíram nada a respeito disso. Só que a novela acabou de acabar. Eu ia dar uma volta lá fora, vou todo dia depois da novela, dar um passeio.
-Lá fora?
-É. Quer ir?
Devagar, vou até a janela da sala. Olho para fora. Um lindo campo, as árvores e o vento dançando uma valsa.
-Não sei, faz tanto tempo.
-Vem, vai fazer bem pro senhor, tomar um ar fresco.
Ela me pega pelas mãos. Fecho os olhos. Balanço no seu passo, danço com ela, sinto sua mão. Seu toque é quase mais macio que seu sopro. Mantenho os olhos cerrados, flutuamos, tiro meus pés do chão, ela vai na frente e eu atrás, ela me conduz como uma pipa no céu.
-O senhor não vai abrir os olhos?
Abro. Estamos no campo. Lembro do passarinho. Acaba de anoitecer. Olho nos olhos dela, mas não estou lá. Me sinto encolhido. O vento tenta me derrubar, fico aflito. Cristina permanece forte, determinada, o vento lhe joga os cabelos na cara. Olho seu seio. De repente, ela grita.
-Ai, merda! Uma formiga me picou!
Saio correndo. Ela grita meu nome, mas não olho para trás, preciso chegar logo no quarto. Passo a sala, corro as escadas, entro no quarto, bato a porta e pulo na cama. Estou assustado. Depois de algum tempo, Cristina bate e entra.
-O senhor tá bem?
Permaneço calado.
-Olha, tá tudo bem, viu? Tá tudo bem.
A voz é mansa, acalanto.
-Não quero jantar hoje.
-Não sei... o senhor precisa comer.
-Só hoje. Não quero.
-Come só o pudim.
Olho seu seio.
-Não. Melhor não.
-Tudo bem... mas vou te trazer o remédio. O remédio o senhor tem que tomar.
Ela traz. O mesmo ritual. Finjo tomar, mas guardo tudo embaixo da língua. Ela sai, cuspo e dou ao passarinho. O passarinho está triste.
-Hoje eu fui lá fora. Lembrei de você. Você devia ir lá fora.
Ele permanece calado. Penso em soltá-lo, mas não quero ficar sem ele. Fico triste com isso. O quarto fica azul.
******************************************************************
Os dias se seguem. Nunca tomo o remédio. A cada dia, tudo muda em mim, oscilo entre a calmaria e o desespero. Nunca dor. Fico triste com frequência. Tristeza é um tipo de dor. Eu não deveria ficar triste. Talvez esse seja meu problema, não tenho dor, não estou completo. Tudo o que sinto não tem onde acabar. Sinto demais, mas errado. Sinto meus dentes um a um na boca. Sei onde eles começam e acabam, sem precisar tocá-los com a língua. Estranho. Os dias passam mais e mais. Cristina-enfermeira e seu contorno pela manhã, seu perfume, seio, sorriso, olhos e pupila. Cristina-enfermeira vê novela, às vezes penso em ver com ela, mas não quero mais sair do quarto. Cristina-doença me atormenta. Assisto Snoopy. O passarinho não canta há dois dias, mas continua azul. Cristina-enfermeira entra. Cantarola o Cravo e a Rosa. O Cravo teve um desmaio, a Rosa pôs-se a chorar. Cristina-doença está aqui. Abre a cortina, o corpo, a luz e o cheiro. O pão, o chá e a maçã. O remédio que não tomo. Cristina-enfermeira sorri. Dentes lindos. Me morde, Cristina-enfermeira, me morde. Passo algumas horas só com Cristina-doença, até o almoço, Cristina-enfermeira volta, começo a ficar confuso entre as Cristinas, me parecem iguais agora. Cristina-doença me dá o almoço. Sobremesa, pudim. Olho seu seio e como o pudim. Mordo o pudim, penso no seio. Cristina-enfermeira está aqui. Cristina-doença fala comigo, pergunta como estamos hoje.
-Estamos bem, eu e Cristina.
-Como?
-Eu e Cristina, estamos bem.
Ela não entende nada, deve estar confusa com as Cristinas também.
-O doutor vem lhe visitar essa semana.
Ela deve estar desconfiada. Percebe que há algo errado.
-Que dia ele vem?
-Não sei, mas vem essa semana.
-Ele usa branco, mas não é dentista.
Cristina sorri, sem graça. Deve estar com medo. Eu sinto medo, mas não medo da dor. Não faria sentido. Eu sinto medo do dentro. O dentro, o embaixo, o entre-os-braços. Eu sinto medo de estar nos olhos de Cristina quando ela fechá-los para dormir e ficar preso lá durante seu pesadelo. Talvez eu seja seu pesadelo, talvez ela seja o meu. Eu tenho medo de estar nos seus olhos quando ela morrer e ficar preso na morte dela.
- Cristina, o passarinho não canta mais.
- Vai ver ele não se sente mais só.
Ela sorri da própria piada. Deve se achar inteligente. Recolhe o prato do pudim. Olho seu seio, quero morder.
-Cristina, quero te morder.
-Quê?
-Nada.
-Eu ouvi.
-Meu pau tá duro, Cristina.
Cristina fica brava.
-Você anda cuspindo o remédio, né? Eu vou embora. Só vou esperar até o médico vir, ele já tá sabendo e vai trazer outra enfermeira.
-Meu pau tá duro, Cristina.
-Escroto!
-O escroto tá mole, Cristina. Esse não endurece.
Cristina sai e bate a porta. Começo a pensar que ela não voltará. Como pode um peixe vivo? Quero morder Cristina-seio-de-pudim. Começo a sentir medo de que ela vá embora, como poderei viver sem a tua companhia? Medo da solidão. É triste demais aqui só com uma Cristina. Eu nem lembro mais como era antes, como eram as manhãs sem o sol trazendo seu perfume e seu contorno, sem seu pudim, sem eu me ver nos seus olhos. Estou com medo. Sinto meus dentes, sinto onde cada um toca o outro, onde cada um se enterra na gengiva. Vou mandar vir um torturador pra ver se ele me salva. Faça seu serviço, eu direi. Me torture até eu sentir algo. Arranque meus dentes um a um, sem anestesia. Eu não sei o que fazer, ela não pode ir embora. Penso em pedir que fique. Enquanto penso, ouço um barulho.
POC.
Veio da gaiola. Cadê o passarinho? Levanto da cama e o vejo caído, duro e morto no chão da gaiola. Ele ainda é azul. O acolho nas mãos. Primeiro, penso que morreu de solidão. Depois, lembro dos remédios. Era isso, tentavam me matar. Era para eu estar morto. Filhas da puta, mataram meu passarinho. Atirei o pau no gato. Tenho raiva. Cristina sabia, filha da puta. Sinto meus dentes rangendo, vou morder Cristina até arrancar seu seio. Minha cabeça roda, ciranda cirandinha. Cristina entra no quarto com sua mala feita. Eu grito.
-Filha da puta! Você matou meu passarinho!
Jogo o passarinho morto nela.
-Você queria me matar! Eu é que vou te matar agora, filha da puta!
Ela corre. Sinto meus dentes. Ela desce a escada, tropeça, cai, levanta. Sinto meus caninos. Eu sou o dente. Talvez ela queira dançar. Estou logo atrás de você, Cristina, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, meia volta vamos dar. Ela vai para a cozinha, pega uma faca, eu chego, ela enfia a faca em mim, pega no braço. Não sinto porra nenhuma. Nada dói. Eu sou o anestesiado. Acerto um soco mal dado em Cristina, ela quase cai. Ainda tem a faca na mão, me acerta mais e mais, no rosto, no peito, nos braços, mas nada me detém, só sinto meus caninos, eu sou o dente. Mordo seu seio com toda a força que possuo, ela grita o grito do inferno, enfia-me a faca na cabeça, uma, duas, três vezes. Tudo é sangue, nada é dor, eu sou o anestesiado, eu sou o dente e a mordida. O anel que tu me destes, era vidro e se quebrou. Mordo mais e mais, vou arrancar-lhe o pudim. Sinto os dentes um a um no seio de Cristina, sinto o local exato onde eles tocam seu sangue. Mordo mais, quero chegar ao coração.
Então, tudo escurece. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Sinto.
O primeiro lugar que dói é meu peito. Depois, a cabeça. Samba lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Solto Cristina, caio de joelhos. Ela corre casa afora e some no campo. Me arrasto, tudo dói. Agora eu sei. Sinto cada facada, cada corte. Onde está João pra me bater agora? Onde está Cristina? Começo a sorrir. Preciso contar a ela, pedir que me bata. Me arrasto pela casa, sentindo tudo. Abro uma porta, há uma escada, desço rolando até a garagem, me debatendo a cada degrau. Sinto cada pancada nas minhas costas. Com os olhos, encontro a caixa de ferramentas no balcão. Me arrasto até lá, estico o braço e a derrubo. Continuo rindo. Acho o alicate e arranco o primeiro dente. Grito. Arranco o segundo, e o terceiro. Um a um, arranco todos os dentes da boca. Penso em Cristina, penso no meu passarinho azul. Cristina, o contorno, o sol, o perfume, o seio, os dentes. Eu nos olhos de Cristina. Eu sou a dor, o sangue e a morte. Eu sou sangue-lúgubre, sou boca-sem-dente, sou febre, cuspe e fome. Ciranda cirandinha, sangue-peixe-vivo, água-fria, cravo, rosa, pau-no-gato, um bosque que se chama solidão, samba-lelê,
samba-lelê,
samba-lelê.
Eu sou a dor, estou vivo e Cristina me deixou. Eu sou Samba Lelê, cabeça quebrada.
Deito e fecho os olhos. Cristina está presa embaixo das minhas pálpebras. Dançamos colados, ela sopra meu ouvido. Seu sopro é brisa e seu toque é macio. Eu olho nos seus olhos, não precisamos dizer nada. Acima de nós, pássaros azuis cantam, não porque são pássarinhos, mas porque estão felizes.


6 Comentários:
Tô amando as coisas que vc tem escrito ultimamente. rs
Que texto forte.
O melhor que já li aqui. É muito cafona dizer "Fófis, minhas congratulações"?. E também "obrigada".
brigado eu, tati. :)
Orra velho, esse texto é muito do caralho! Descobri teu blog e venho lendo aos poucos, na encolha, mas neste aqui precisei comentar HAHAHA, bom demais!
valeu, Brayan. :)
Postar um comentário