Puta-minha.

Um idiota.

Como mais poderia me sentir? Ela era algo, enquanto dançava, e era minha. Me olhava, encarava, era meu ópio-dos-olhos, escorregadia e vulgar, era uma puta, mas era minha. Ela era dança, pernas e bunda, dorso, morte e vida, amor-meu, puta-minha. E eu era o escravo do instante, da noite, da observação, da saliva. Eu era escravo do beijo que trocamos há míseros vinte minutos. Vinte minutos, e o idiota aqui seria capaz de dar-lhe a vida. Eu a observei por uma ou duas horas. Ela me viu, provocou, esbarrou-me na pista, na fila do banheiro, no balcão do bar, tocou-me em um descuido mensurado. Desculpa. Claro, desculpo. Deixo cair vodka nela. Vodka, onde? Passo a língua em seu braço, onde a vodka caiu. Sempre fui dessas graças. Ela ri, gostosa. Conversamos, mas não lembro uma palavra. Estou bêbado, ela também, é só o que se nota. Palavras brotavam em lírios de sua boca e me embriagavam. Eu flutuava nas palavras. Eu flutuava na visão das suas pernas. Eram pernas longas, dessas que te abraçam. E em algum momento, ela é que deixa cair vodka no meu braço, e depois lambe. Da lambida no braço ao caminho do beijo, foi fácil. As bocas nos pescoços, as unhas nos corpos, a vodka caindo em toda pele, em qualquer parte. Por vinte ou trinta minutos eu fui pleno, e ali, na frente de todos, no balcão, quase nos comemos. Quero dançar. Dançar? É, dançar, vem. Ela me pega pelas mãos - como eu queria que fosse pelo pau - e me leva à pista, dançando, rebolando, flutuando, explodindo. Eu nunca fui muito de dançar, mas eu tentei. Ela riu, achou graça, eu ri. Ela riu mais, e de novo, e comecei a pensar que ela me achava ridículo ao invés de gracioso. Você me acha ridículo agora, pensava eu. Sua puta. Vou te foder na cama até você perder a graça. Puta-minha, eu te amo. Onde você vai? Vou buscar mais uma vodka. Ela foi, eu fiquei na pista, dessa vez ela não me levou pela mão, tão pouco pelo pau. Fiquei lá, bêbado-letargo, pensando: antes ela quis dançar, agora quis vodka, ela tá pensando que eu sou o quê? E eu, não bebo? Minha vodka também acabou, tô bêbado, e não pretendo ficar sóbrio. Então a vejo ali, alguns metros de mim, no pequeno palco perto do DJ, dançando com um sujeito, ela de costas pra ele, esfrega-se como uma puta, mas não a minha. E sorri um sorriso débil e lascivo, demoníaco, livre. Ela me vê. E ri mais ainda. Deixa o vestido cair do ombro. O sujeito a morde. A expressão dela é de prazer. Ela me olha. Um outro sujeito sobe no pequeno palco e ela fica no meio dos dois. E um terceiro logo se dispõe a juntar-se ao pequeno grupo de filhos da puta que ali se formava. O DJ vê tudo e faz uma transição na música, para outra mais alucinada, pesada, densa. Mais homens sobem, um a um, no palco, uma selva de faunos. Ela me olha pela última vez e some no meio deles, naquele mar de testosterona.

Como mais eu poderia me sentir?

Vou embora. Não olho para trás, tenho a sensação que se olhar, me transformarei numa estátua de sal. Na saída, pago, tonteio, tropeço, caio e me levantam. O senhor tá de carro? Tô sim. O senhor não vai dirigir assim, vai? Eu nem poderia, não sei onde parei o carro. Vou chamar um táxi pro senhor. Sabe, tá uma orgia lá dentro, você não imagina. Ah, imagino, sim, mas eu nem entro aí, a patroa me mata, ela sempre pergunta se eu fico mesmo só aqui de segurança e eu digo que sim, que não entro de jeito nenhum, sabe como é, né, doutor, a patroa é brava. Claro, sei como são as patroas. Olha, o táxi do senhor chegou. Sabe, eu não tenho patroa, eu tinha uma puta, mas ela se afogou. Entro no táxi. Pra onde? Pra casa. Onde é sua casa? Ih, fudeu. Ponho a cabeça pra fora do táxi e grito: onde é minha casa? Ouço a risada dos seguranças. Olha, espera aí, motorista, vou descer. Eu desço e grito que quero falar com aquela puta. Qué isso, doutor, vai dar trabalho agora? Começo a gritar que quero falar com aquela puta que me lambeu a vodka do braço, avanço para a porta, sou barrado, vou ao chão, o táxi vai embora, me levantam. Fica calmo, doutor. Eu vou ficar calmo quando falar com aquela puta. A puta da vodka. Ela é o que sua? Minha o quê? Doutor, ela é o que sua? Minha puta, já falei. Qual o nome dela? Nome? Não sei. Ela é sem-nome. Ela me pegou pelas mãos e me levou pra dançar. Vou ter que pedir para o senhor se retirar antes que cause mais confusão.

Então ela sai, sozinha, pela porta. Como mais eu poderia me sentir?

Ela me olha, eu me calo. Olho para o segurança e sussurro: é ela. Tá vendo, ela existe. A senhora conhece esse senhor? Conheço, é meu namorado. Me calo. Como assim? Ela me olha, eu olho, meu ópio-dos-olhos, eu sou o idiota, ela tem a expressão do cansaço e do álcool, sua alma em seu rosto, sua beleza na carne, sua carne de puta, uma puta é um paraíso, o paraíso é um desejo, o desejo é bruto como meu coração, meu coração é vasto e meu pau fica duro.

Triste e de pau duro. Não consigo me lembrar de nada pior que isso. Talvez triste e de pau mole.

Observo seu rosto, com tristeza. E ali, naquele momento, ela sabe que agora lhe pertenço, e só me resta torcer para que ela me poupe e não abuse do meu martírio de só por ela me saber ser.

8 Comentários:

Pedro disse...

Bravo!

Quem não teve uma puta-minha-e-muito-mais-dos-outros que levante a mão cheia de cabelos...

Brincadeira, fófis. Belíssimo texto.

Abs

Pedro disse...
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Manzana disse...

que putaria.

Manzana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manzana disse...

brincadeira, mano.
você trabalha a putaria com requinte. é fino e merece respeito.

Pedro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabela Dantas disse...

Ma-ra-vi-lho-so!
Parabéns!!!

tatiana disse...

Achei tão triste. Bonito e triste, como você descreveu um dos meus textos tempos atrás.