almargeado

lacerado e soterrado
sob os restos do teu nome
só me cabe ser ninguém
sem corpo, sem fome
sem sangue
serei sempre a parte
enquanto tu segues incólume
serei a sobra
o lamento do amor lasso
almargeado
a vida que some.

enquanto tu segues perene, intacta
eu sigo encetado
ferido
tu segues viva
eu-morto
privado do afago
olvido
tu segues lasciva
e eu, combalido,
desabo,
devastado e perdido.

tu és o fulgor do amor
e da dor
o desejo e a beleza
a boca e o seio
mas eu sou o ressentimento
a nódoa no teu peito
a água-viva
o extremo.

eu serei o abismo nascituro sob teus pés
que se abrirá passo-pós-passo
em ato-irascível
e te engolirá
no não-tempo.

eu serei teu ávido-algoz-áspero
a águia que dilacera teu fígado
teu nunca-alívio
teu sempre-tormento.

1 Comentários:

Manzana disse...

mano, muito bonito.
esse posso dizer que tocou-me profundamente.

bjos da amiga mais amiga do brasil

beijos