O mundo é algo entre o asco e o escarro, habitado por sacos de merda que nascem, crescem e morrem na mediocridade. Alguns enfiados em roupas de escritório e alguns com as roupas de escritório enfiadas no cu. Carreiras bem sucedidas, é o mundo moderno, não há tempo para preguiça, você tem que ser útil, rapaz, você tem que ser útil.
Não eu.
Eu sou um inútil. Se o mundo é algo entre o asco e o escarro, eu nem mesmo fui cuspido. Transito no escuro e durmo em espeluncas que - com muita sorte - cheiram à urina. Eu não serei útil, não nesse mundo.
Naqueles tempos eu me enrolava com Maria. Nome de santa. Trepava como se fosse a última vez na vida. Não, não era bonita. O dinheiro começou a faltar e ela reclamava que não ia mais poder pagar casa e comida sozinha, "teu pau não vale tanto assim", dizia. Ela é que nos sustentava. Gostava um bocado de mim - devia gostar - pra sustentar um vagabundo assim. Mas com o tempo, a gente teve que escolher entre comprar cervejas ou pílulas anticoncepcionais. Maria engravidou.
-Tira fora - eu disse.
-Não tenho dinheiro, custa caro fazer essas coisas - respondeu seca.
-Tem uns jeitos baratos, dá pra fazer um lance com umas agulhas de tricô.
-Olha, se você acha que eu vou enfiar uma agulha na minha buceta, tá muito enganado!
-Por que a paranóia? Aposto que você já enfiou coisas bem maiores aí dentro.
-É, mas com certeza não foi seu pau.
Depois de dois dias finalmente descobri que ela queria ter o filho. Eu realmente tenho que dar o braço a torcer : Maria sabia o que queria. Eu procurava não me preocupar com os porquês da Maria. Basicamente era assim que eu vivia, sem me preocupar. Não tenho ruga nenhuma. Também não tenho dinheiro, não tenho roupas, não tenho nada, mas não tenho ruga nenhuma. Minha testa é lisa como bunda de nenê. Me deixem em paz, eu não perturbo.
-Eu quero o filho, disse ela
-Olha, sei que sou o homem perfeito, mas você encontra outro pra ser o pai dos seus filhos.
-Não tem nada a ver com você...Não precisa se preocupar, eu te conheço. Pode sumir se quiser.
Claro que eu ia sumir. Mas mesmo assim me preocupava deixar um rastro no mundo. Já tem gente demais aqui. Devíamos praticar apenas sexo oral e anal. Sem riscos de deixar rastro. Seria uma maravilha. Um dia, não haveria mais ninguém no mundo, seria o fim da era dos sacos de merda. O fim da humanidade seria causado pelo sexo anal. Talvez só sobrassem as baratas, afinal, dizem que apenas elas resistiriam ao fim do mundo.
-Maria, você não vai ter dinheiro pra sustentar EU e mais um filho.
Maria me olhou com ódio. Às vezes eu vou longe demais. Os dias se passaram. Quer ter o filho? Tenha. Não me mande notícias, vou estar bêbado demais pra entender que tem alguém andando por aí com o mesmo DNA que o meu. Se um dia eu precisar de uma medula, mando avisar. O meu plano brilhante era aproveitar o máximo a hospitalidade de Maria, até a barriga dela começar a crescer e eu sumir. Mas as coisas começaram a piorar. Depois de uma semana ela apareceu com um monte de fraldas e roupas, chocalhinhos e esse tipo de coisa.
-Maria, me dá dinheiro pra cerveja.
-Não tenho.
-Mas você não quer cerveja?
-Vou parar de beber, não é bom pro bebê.
-Se é meu filho, eu duvido que ele ache bom ficar sem beber. Me dá o dinheiro que minha garganta tá seca pra caralho.
-Daqui pra frente, VOCÊ compra sua cerveja, “querido”.
-Porra, Maria, você não me ama?
-Não.
-Porra, você tá gastando todo o nosso dinheiro com umas merdas de fraldas que só vai usar daqui a nove meses. Caralho, que merda você pensa que tá fazendo? Se me quer aqui, me dá cerveja! Se não quer, fala logo e eu sumo! O que eu acho uma merda é ficar nessa bosta sem cerveja.
-Então some – disse, numa serenidade tão macia e cheia de certeza que me deu até sono.
Normal. Não peguei minha coisas, até porque não tinha muitas, a não ser as que ela me deu. Me calei e fui dar uma mijada. Fui só me despedir. Pensei até em dar uma última trepada, não custava nada, eu não sou de guardar ressentimentos.
-Tchau, Maria – dei um beijo e apertei sua bunda.
- Não - disse se afastando – é melhor você ir logo. Você já tá me dando nojo.
Me afastei.
-Você fez um filho e não tá nem aí.
-Olha, Maria, eu avisei que tava pouco me fodendo e você disse que era responsabilidade sua.
-Eu sei, mas eu esperava mais de você. Você não quis nem saber que nome eu vou dar pra ele. Depois, daqui a vinte anos, você seria capaz de encontrar seu filho e nem saber.
-Nome? Já tem nome? Cê nem sabe se é menino ou menina!
-Vai ser menino, eu sei. E vai se chamar Jesus.
Oh oh, pensei. Jesus. Filho de Maria.
-Então quem eu sou? João? Ou foi José? Quem é o pai de Jesus mesmo? Eu nunca fui bom nesse negócio de Bíblia…Não, claro que não. Esqueci: eu sou Deus.
-Você me enoja, seu bosta, você é um merda! UM MERDA! SOME! COMO EU ME ODEIO POR TER PERDIDO TEMPO COM VOCÊ! SEU BOSTA!
-Sim, amor, eu sou. E você é pior que eu , porque só conseguiu ter um filho com um bosta, e teu filho tá fadado a ser um bosta, mesmo eu sendo Deus.
-FILHO DA PUTA!
Maria avançou em mim aos tapas. As unhas me machucavam o rosto. Eu apenas me esquivava. Ela acertou muitos na minha cara até eu revidar, foi inevitável, ela estava descontrolada. Desci um tapa em sua cara. Maria parou o escândalo. Me olhou, os olhos cheios de raiva e alguma surpresa. Foi pra cozinha. Voltou com uma faca. Avançou. Eu me esquivei. Avançou de novo. Os olhos já não tinham raiva, apenas uma tranqüilidade de quem sabe que fará um bem ao mundo. Avançou pela terceira vez, pegou meu braço, uma risca de sangue. Ardeu. E de novo, outro risca. Quando avançou novamente em direção à garganta, foi impossível não me defender, e a empurrei para parede, usando seu próprio impulso. Ela ainda virou e levantou a mão, a faca um só brilho no ar. Dei-lhe um soco. Ela cambaleou e tropeçou na escada. Rolou feito uma bola de merda seca. O barulho dela caindo foi agonizante. Degrau a degrau, parecia que nunca acabaria. Uma escada sem fim. Ao final de cada degrau, surgiria um novo. Degraus brotariam do chão e prolongariam a queda. Aquilo não acabava, uma tortura.
Enfim, o silêncio.
Fui até o topo da escada. Lá estava ela, caída na sala, toda retorcida. Desci. Ela ainda respirava, estava bem, ia sobreviver. Mas provavelmente o moleque já tinha ido pro saco. Sentei ao lado dela e tentei pensar no que fazer. Pensei em hospitais, em polícia e em cerveja. Mas só o pensamento da cerveja permaneceu. Aquilo tudo fez eu me sentir muito mal: era a constatação definitiva de que eu era um inútil. Do jeito que as coisas caminhavam, eu acabaria sozinho. Ou talvez apenas com uma barata para me fazer companhia. Eu, a barata, e um bocado de cerveja. Juntos, até o fim do mundo.
Maria abriu os olhos lentamente. Fez muito esforço pra dizer algo, mas eu não escutava os sussurros. Cheguei com o ouvido perto da sua boca e ouvi, bem baixinho:
-Filho da puta…meu filho… filho da puta…
-Desculpa, não entendi... seu filho é um filho da puta? O que que a Madalena tem a ver com isso?
-Seu bosta…
-Bom, Maria, pelo menos você não precisou enfiar uma agulha na buceta.
Levantei e fui embora, procurar uma cerveja gelada. No caminho, esmaguei uma barata: ficarei só, aqui ou no fim do mundo.


5 Comentários:
inutilmente rascunhado por fofolete*
É meu ovo.XD
O texto tá fodão.Detalhe que eu conheço pessoas assim.Meu pai é uma delas.¬¬
;*
Eu uso umas roupas de escritório apertadas, mas não chegam a ficar enfiadas no cú. Sobre todo o resto, tem razão. Ah, a barata é foda mesmo. Infelizmente, ainda não consigo deixar de pisar quando vejo uma, apesar do aperto no coração...
Muito bom esse, mano!
muito bom...
as minhas roupas tbm nao sao enfiadas no cu. E depois das 18hs, camiseta do KISS rlz! hauihaiua
bju
'cê também lê Buk, não? E Fante.
Sensacional o texto, vou me ocupar com o resto do blog agora. Quem precisa trabalhar, afinal de contas?
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