A cliente entra no meu escritório, larga a bolsa com toda a força na mesa. Eu digo "bom dia" e ela responde assim:
-Seguinte: eu não gosto de vídeo. Não quero vídeo desse meu evento. Não imagino como esse evento pode ficar bom no vídeo. Não quero vídeo de jeito nenhum. Não sei pra quê vídeo.
-Ok. Eu também não sei, nem sei que evento é esse.
-É um festa do jornal que trabalho, fiquei responsável pelo registro em foto e vídeo.
-Ok. O que você precisa, o que você quer, EXATAMENTE? Vou tentar te ajudar.
-Eu quero e preciso de foto. Não quero e nem preciso de vídeo.
-Ok, então por que você me procurou? Eu faço vídeo, você sabe, né?
-Sei sim.
-E... (tento adivinhar, mas juro que não consigo).
-Eu não gosto de vídeo, entendeu?
-Isso já tá bem claro. Você praticamente odeia vídeo.
-Isso, odeio vídeo.
-Até eu já tô odiando vídeo.
-Então.
-Deus me livre gostar de vídeo. Era só isso?
-Não, é o seguinte: como eu não gosto, eu nem queria vídeo, você pode fazer a cobertura do evento por R$ 500? Com duas ou três câmeras, talvez? E me entregar editado, em 10 cópias Blu-Ray?
-Não, não posso.
-Mas eu não vou gastar mais que isso, eu nem queria vídeo.
-Já entendi que você odeia vídeo e não queria vídeo, mas isso não muda o preço do meu trabalho.
-É que por mais que isso, eu não faço.
-Percebi.
-R$ 550, no máximo. Eu consigo 550.
-Mas você vai gastar essa fortuna com algo que você não quer, não gosta, odeia? Faz isso não.
-O que você pode fazer com 550?
-550?
-É.
-Só a "saída" do meu equipamento básico é 400, minha senhora. Só o equipamento, básico, sem o profissional.
-POOOOORRA! Quatrocentos?
-É.
-Mas é de ouro essa câmera?
-A lente é de diamante.
-Diamante?
-Isso.
-Nossa, então a imagem é boa.
-É sim.
-Mesmo assim, eu não gosto de vídeo, não queria. A tua câmera de diamante eu compro pelos 400 então e ponho alguém pra filmar.
-Não, minha senhora. A senhora não entendeu, mas vou explicar.
-Se a câmera é 400, você não faz todo o trabalho por 150? Aí dá 550.
-Calma, minha senhora.
-Olha, eu só pago 550, eu devo sair cedo da festa, mas depois você deixa a câmera com meu assessor.
-E meu rabo, deixo com quem, minha senhora?
-Quê?
-Nada não. Foi só um lampejo de dignidade.
-Olha, é pegar ou largar.
-Eu largo.
Vida de Profissional Audiovisual - II
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on quinta-feira, 13 de outubro de 2011
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Vida de Profissional Audiovisual
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fofolete
on terça-feira, 27 de setembro de 2011
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-Boa Tarde, Fofolete falando.
-Oi, Fofolete, aqui é o seu cliente.
-Oi, Seu Cliente, tudo bem?
-Tudo. Queria só saber porque você recusou a oferta que lhe fiz em cima do orçamento que você me passou.
-Bem, sabe como é, fica difícil dar um desconto como o que o senhor pediu, de 80%.
-Bom, é que meu sobrinho faz de graça, então é o máximo que eu posso pagar.
-Sei, sei. Seu sobrinho.
-Isso. Se posso fazer de graça com ele, porque vou pagar o que você pediu?
-É verdade, por que, hein? Faz com ele. Nem sei porque o senhor me ligou, Seu Cliente.
-Ah, achei que talvez fosse melhor um profissional fazer.
-Sei, sei. E aí você quer pagar o valor de um amador para um profissional?
-Eu sei que o seu trabalho vale, mas é o que posso pagar.
-Eu sei que é o que o senhor pode pagar, mas não é o que o meu trabalho vale.
-E como podemos resolver isso?
-Faz com teu sobrinho, é o que o senhor tem à disposição. Eu queria comer a Zooey Deschanel, mas nem sempre a gente consegue o que quer e tem que ficar com o que pode alcançar. No meu caso, a Zooey Deschanel tá longe pra dedéu.
-Zói quem?
-Deschanel.
-Zói Chanel? Do perfume?
-Isso.
-Olha, afinal você vai fazer ou não?
-Já passei o orçamento. Caso o senhor queira fazer, aquele é meu valor final, Seu Cliente. Posso dar um desconto de 15%.
-Você se acha a última bolacha do pacote, né?
-Não me acho a última bolacha não. Eu me valorizo como profissional. Já fiz muito trabalho escravo. Acho normal - embora descabido - alguém fazer uma proposta como a do senhor, mas já acho falta de respeito insistir assim. Aquele é meu valor.
-Meu sobrinho vai fazer melhor que você.
-Tá ótimo, me manda quando tiver pronto pra eu ver. Se o moleque for bom, eu contrato. E pago bem, pra ele não ter que fazer trabalho escravo pra mais tios por aí.
-Você vai se arrepender.
-A Zooey Deschanel também vai se arrepender de não ficar comigo, mas o quê que eu posso fazer?
-Oi, Fofolete, aqui é o seu cliente.
-Oi, Seu Cliente, tudo bem?
-Tudo. Queria só saber porque você recusou a oferta que lhe fiz em cima do orçamento que você me passou.
-Bem, sabe como é, fica difícil dar um desconto como o que o senhor pediu, de 80%.
-Bom, é que meu sobrinho faz de graça, então é o máximo que eu posso pagar.
-Sei, sei. Seu sobrinho.
-Isso. Se posso fazer de graça com ele, porque vou pagar o que você pediu?
-É verdade, por que, hein? Faz com ele. Nem sei porque o senhor me ligou, Seu Cliente.
-Ah, achei que talvez fosse melhor um profissional fazer.
-Sei, sei. E aí você quer pagar o valor de um amador para um profissional?
-Eu sei que o seu trabalho vale, mas é o que posso pagar.
-Eu sei que é o que o senhor pode pagar, mas não é o que o meu trabalho vale.
-E como podemos resolver isso?
-Faz com teu sobrinho, é o que o senhor tem à disposição. Eu queria comer a Zooey Deschanel, mas nem sempre a gente consegue o que quer e tem que ficar com o que pode alcançar. No meu caso, a Zooey Deschanel tá longe pra dedéu.
-Zói quem?
-Deschanel.
-Zói Chanel? Do perfume?
-Isso.
-Olha, afinal você vai fazer ou não?
-Já passei o orçamento. Caso o senhor queira fazer, aquele é meu valor final, Seu Cliente. Posso dar um desconto de 15%.
-Você se acha a última bolacha do pacote, né?
-Não me acho a última bolacha não. Eu me valorizo como profissional. Já fiz muito trabalho escravo. Acho normal - embora descabido - alguém fazer uma proposta como a do senhor, mas já acho falta de respeito insistir assim. Aquele é meu valor.
-Meu sobrinho vai fazer melhor que você.
-Tá ótimo, me manda quando tiver pronto pra eu ver. Se o moleque for bom, eu contrato. E pago bem, pra ele não ter que fazer trabalho escravo pra mais tios por aí.
-Você vai se arrepender.
-A Zooey Deschanel também vai se arrepender de não ficar comigo, mas o quê que eu posso fazer?
O Borboleta e o Cronograma.
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on terça-feira, 19 de abril de 2011
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Tópico Livre
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fofolete
on quinta-feira, 10 de março de 2011
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Também ando lá pelo Tópico Livre agora, um blog que fiz com amigos. Continuo por aqui, mas lá tem mais gente escrevendo e post novo quase todo dia. Confiram, tá bem bacana e decente, e fiquei até orgulhoso de ter feito o template e colocado tudo no ar:
http://www.topicolivre.com/
Um conto meu publicado lá:
Whole Lotta Love
http://www.topicolivre.com/
Um conto meu publicado lá:
Whole Lotta Love
Lepra.
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fofolete
on sábado, 8 de janeiro de 2011
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Augusto já vivia no limite. O trabalho consumia a vida. Depois de 4 dias sem dormir, os dedos de Augusto começaram a cair, um a um. Depois, as mãos, os braços, os pés, as pernas, a língua, as pálpebras e, por fim, sua cabeça soltou-se do resto de corpo que lhe sobrava. O tronco escorregou cadeira abaixo e a cabeça caiu sobre o teclado do seu reluzente computador da Apple. Augusto suspirou e, enfim, cogitou dormir, mas não tinha mais pálpebras para fechar os olhos.
plexo aberto.
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fofolete
on sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
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quem dera eu fosse um daqueles de lúcidas artérias, tatuados de infância, de plexo aberto e exposto aos lobos que a hilda falou. ah, quem dera.
Samba Lelê.
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on quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Não saio daqui. Adoeci. Tem nome a doença, mas não sei qual, por isso a chamo "Cristina". Fica melhor assim. O que ele tem? Tá na cama com Cristina. A doença é da cabeça, dizem. O médico explicou, não entendi. Mandou-me à cama. Não sei bem se é médico, mas o chamo doutor. Usa branco. Se não for médico, talvez seja dentista, mas não caberia a um profissional dos dentes mandar-me à cama. Ainda que fosse preciso arrancar-me todos os que carrego na boca , não seria o caso de passar tanto tempo assim na horizontal. E se me arrancassem um a um, eu nem sentiria. Sou imune à dor, desde pequeno. Eu nunca chorava, dizia minha mãe. Você não chora nunca, menino. Cortava-me nos espinhos das plantas, ralava-me nos muros, fodia-me todo, mas não chorava. Sem dor. Uma vez, João desceu-me a porrada. João era um vizinho, briguento, o maior menino da rua. Era magro, mas muito alto, e tinha mais força que todos os outros. Um dia jogávamos bola e sem querer enfiei-lhe o pé na canela. João avançou e fomos ao chão. Me acertou sete socos na fuça. Como eu não os sentia, só me restava contá-los. Depois de tantos socos, qualquer garoto já estaria chorando. Não eu. Quando ele parou, eu olhei nos olhos dele - bem no fundo mesmo - e ele não viu uma lágrima que fosse saindo dos meus. João ficou puto. Bateu-me mais ainda, dessa vez, nove socos. Contei de novo. Fiquei todo ensanguentado. Quando parou, quem chorou foi ele, de raiva. Nunca mais respeitaram João. O soco do João era só um sopro.
Agora eu fico aqui, o resto de mim, um sopro do que fui. Me dão remédios, pra Cristina. Eu tomo. Sei que me contam como louco, só não me importo. Tem uma gaiola no meu quarto, e um passarinho nela. Azul. Ele canta toda manhã, bonito. A enfermeira vem todo dia, vestida de branco. Dona Paula. Ela é calada, feia, carrancuda e velha. Antipática, nunca sorri. Pela manhã, me traz uma xícara de chá, duas fatias de pão com manteiga, uma maçã e os remédios. Abre as cortinas e deixa o sol entrar. Lá fora eu vejo árvores, verdes, algumas com flores amarelas. Talvez por obrigação, ela sempre me pergunta se quero dar uma volta, mas quando saio, sinto-me pequeno e encolhido, como uma formiga. As formigas trabalham muito, e eu não quero trabalhar. Um dos motivos de aceitar que me tomem por louco é não ter que trabalhar. Eu estava cansado. Depois a enfermeira liga a televisão e vai embora. A TV está quebrada, não liga com o controle remoto, só na TV mesmo. Hoje assisti Snoopy, o pequeno cão voava em cima de sua casa, como se fosse um avião. Mais tarde, ela traz o almoço e a sobremesa. Pudim de chocolate. Meu dia não muda muito, até a hora do jantar e de dormir. Às vezes, o pudim é de leite, às vezes o doutor vem me visitar. Eu prefiro o de chocolate. O doutor faz perguntas, olha meu olho com uma luz, muda meus remédios. Como está a Cristina hoje, ele me pergunta. Outras vezes, a família vem me ver. Minha mãe, sempre preocupada, procura machucados em mim. Como não sinto dor, posso me machucar e não saber. Depois, as visitas se vão e demoram a voltar. Ficamos eu e o Snoopy, o pequeno cão voando em cima de sua casa.
O passarinho azul canta. Ela entra. Cabelos pretos, vestido branco. Nunca a vi antes. Deve ter uns vinte e poucos anos. Vinte e seis, eu chutaria. Cantarola uma canção, uma dessas de criança. A do peixe. Olha pra mim. Como pode um peixe vivo?
-Oi, sou sua nova enfermeira.
-Oi.
-Trouxe seu café da manhã. Chá, pão com manteiga e maçã. E seus remédios.
-Brigado. O que aconteceu com a outra enfermeira, a Dona Paula?
-Ela precisou sair de férias, alguém doente na família.
-Ela foi cuidar dos doentes dela agora.
-É, acho que sim.
Com as duas mãos, pego a xícara de chá e tomo bem devagar. Viro a xícara enquanto a observo, parada, me observando.
-Você poderia abrir as cortinas, por favor?
-Ah, claro, desculpe.
Ela abre. A luz do sol invade o quarto, passando por ela antes de chegar a mim, me trazendo seu cheiro. A luz também revela suas formas por baixo do vestido branco. Mordo a maçã, enquanto a observo.
-Você não vai comer o pão?
-Ah, verdade, esqueci o pão. Pulei uma etapa.
Ela sorri. Senta-se na poltrona de frente para a cama enquanto termino minha maçã. Não vou comer o pão hoje. Tomo os remédios com o resto do chá. O passarinho canta, bonito. O que será que ele canta? Ela liga a televisão e põe no Snoopy. Pergunta se quero mais alguma coisa, digo que não. Ela está de vestido branco, mas não é dentista. Sai cantarolando outra música de criança, a do balão que cai aqui na minha mão. Antes de fechar a porta, ela se vira.
-Ah, meu nome é Cristina.
******************************************************************
Passo as horas até o almoço pensando em Cristina, não na doença, mas na nova enfermeira. A cada dia que se passa, os pensamentos aumentam. Assisto Snoopy, mas penso em Cristina, sempre. A enfermeira, não a doença. Nos dias que se seguem, começo a acordar sozinho, antes dela chegar. Permaneço deitado e aguardo que ela venha abrir as cortinas para que eu sinta seu cheiro misturado à luz do sol. O melhor momento do dia, quando consigo ver seu contorno dentro do vestido branco.
-Bom dia! Trouxe seu café da manhã.
-Brigado, Cristina.
Ela sorri. Seus dentes são perfeitos. Antes de por a bandeja na cama, observo seu seio. Ela nota e se atrapalha, tropeça. A bandeja cai em mim. O chá, direto na minha cara.
-Ai, meu deus, desculpa!
Ela se apressa para ver se estou bem, e começa a soprar meu rosto. Seu sopro é suave, macio. Apesar de não sentir dor alguma, fecho os olhos. Não falo nada, apenas sinto seu sopro. O mundo todo vira câmera lenta. O sopro é delicado, uma brisa. Levemente, começo a sorrir. Ela pára de soprar e me olha, surpresa.
-Não tá doendo? Não queimou? Você tá rindo?
-Eu não sinto dor. Pensei que tivessem te falado.
-Nossa, eu tinha esquecido. É o costume.
Penso se ela realmente é enfermeira ou se apenas a vestiram de branco para cuidar de mim. Ela fica em silêncio e me observa por alguns segundos e depois dá um tapa na minha cara.
-Não senti nada.
Começamos a rir.
-Já ouvi falar, mas nunca tinha visto. E eu aqui pensando que você tinha se queimado todo. Quer dizer, você tá queimado um pouco, mas não deve ter sentido nada. Você não sente dor mesmo?
Pego a xícara de chá vazia e quebro na minha cabeça. TLECT!
-Não.
Primeiro ela se assusta e arregala os olhos, dá um pulinho. Depois cai na gargalhada.
-Parecia Os Três Patetas!
Rimos mais. Enquanto ela ri, seu seio balança. Quero morder. Não posso. Mas quero. Como me tomam por louco, talvez eu devesse. Eu quero. Que diferença faria? Mas aí Cristina iria embora e eu ficaria sozinho aqui, com Cristina. A doença.
-Meu Deus, preciso limpar tudo isso. E acho que você vai ter que tomar banho cedo hoje.
Eu tomava banho sozinho, e ela já sabia disso. Ela limpa tudo e vou ao banho. Os remédios foram todos ao chão. Não os tomo hoje.
******************************************************************
Acordo de pau duro. Isso não me acontecia mais. Não tomei os remédios ontem, talvez seja isso. Sinto-me estranho. Não sei se melhor ou pior, só estranho. Sinto meus dentes esquisitos, como se fossem plantados. Apenas os sinto, ali, me lembrando que habitam em mim. É como se tivessem aparecido hoje, corpos estranhos à minha boca, invasores. Passo o dedo neles. O passarinho azul canta. O canto do pássaro mistura-se com outro que vem do corredor. Sapo Jururu na beira do rio, com frio. Cristina entra. Por um momento, posso jurar que está nua, mas a ilusão logo se desfaz.
-Bom-dia!
-Bom-dia, Cristina.
-Como estamos hoje?
-Estamos bem.
Ela abre as cortinas, o melhor momento do dia. O contorno, o cheiro, o seio, os dentes.
-Hoje vou tomar cuidado pra não derrubar nada.
Sorrio. Tomo meu chá, como meu pão, minha maçã. Ela fica ali, como sempre, na poltrona, observando.
-Você pode ligar a TV?
Quando ela levanta e se vira para ligar a TV, escondo os remédios embaixo do travesseiro. Quando se vira de volta, faço o movimento de levar a mão à boca, fingindo tomá-los. Tomo o último gole de chá. Ela sorri, pega as coisas e vai embora. Tiro os remédios debaixo do travesseiro, levanto e os dou ao passarinho azul. Ele come, no ato. Talvez ele cante de solidão.
Na hora do almoço, Cristina volta. Canta outra de suas canções de criança. Nesta rua, nesta rua tem um bosque, que se chama, que se chama Solidão. Não há sol, mas sinto seu cheiro. Seu seio, de novo. Seus dentes. Ela me olha, parece diferente, parece que estou dentro de seus olhos. Eu sou sua pupila, penso. Sinto sua pálpebra se fechando, me abraçando.
-Trouxe seu almoço.
-Brigado.
Ela senta e observa. Olha o passarinho também.
-Ele só canta de manhã?
-Só. Deve ser pra me acordar.
-É bonito esse azul dele.
-É mesmo. Eu queria saber o que ele canta.
-E será que ele sabe?
-Como assim?
-Ele só canta.
-Só canta?
-É, ele é um passarinho, sua função é cantar. Canta porque é um passarinho, os passarinhos só cantam e voam, e como ele não pode voar, preso nessa gaiola, ele canta.
Olho para o passarinho. O azul é lindo mesmo.
-Não acho que ele cante só por cantar, só porque é um passarinho.
-Por que ele canta então?
-De solidão, eu acho.
Ela olha o passarinho.
-Que triste. Prefiro pensar que ele canta porque é um passarinho.
-Sei não. Isso sim me parece triste, fazer algo só porque é sua função.
-Todo mundo tem uma função.
-E qual é a sua?
-Cuidar de você.
Olho seus olhos, eu dentro deles, posso me ver ali. Ela pisca, em câmera lenta. Primeiro, sinto a sombra dos seus cílios se aproximando e tudo vai escurecendo, depois sua pálpebra me cobre e me sinto quente, acolhido. Então ela abre os olhos e posso ver a luz.
-Deve ser esquisito esse negócio de não sentir nada.
-Eu sinto coisas. Só não sinto dor. Não sei explicar, é um caso raro. Eu sinto se me pegam, se me tocam, sinto o quente, o frio, sinto as coisas, mas quando são coisas que doem nos outros, não doem em mim, eu só as sinto, estão ali. Acho que eu não sei o que é dor, já que nunca senti. Quando eu era pequeno, minha mãe tentava me explicar o que era, eu nunca entendia. Fui crescendo e entendendo, mas não sentindo. Só sei o que é dor na teoria.
-Você é uma espécie de super-homem.
-O Super-Homem nunca se machuca. Eu me machuco. Só não sinto. Isso é até perigoso, e nem sempre é vantagem. Quando era moleque, me machucava e não sabia, quase morri algumas vezes. A vida fica difícil, exige cuidados extras. Uns médicos me disseram que a dor é uma manifestação de que você está vivo. Se eu não sinto dor, uma parte de mim não está viva.
-Credo, que horror.
-De certa forma, sempre estive meio morto.
Ela se cala. Olha o passarinho azul. O quarto fica triste. Termino o almoço calado. Ela observa. Por último, tomo os remédios. Ela pega tudo e sai. Cuspo os remédios, levanto e dou ao passarinho.
- Você tem passado muito tempo sozinho aqui, né, passarinho?
O passarinho me olha. O quarto todo fica azul. Me pergunto porque Cristina-enfermeira canta as canções de criança. Talvez ela seja mãe e cante para seu filho. Ou talvez ela cante por solidão.
Passam-se algumas horas, resolvo sair do quarto. Desço as escadas, tudo é silencioso. Eu mal consigo lembrar das vezes que saí do quarto desde que estou com Cristina. A doença, não a enfermeira. Sentia medo, mas hoje não sinto. Ouço vozes. Chego na sala, é a TV ligada. Cristina-enfermeira assiste uma novela.
-É novela?
Ela se assusta e pula do sofá.
-Nossa, que susto! Nem te vi chegando!
-Desculpa, eu quis sair um pouco do quarto.
-Me disseram que você quase nunca sai de lá. Umas duas vezes só, desde que começou o tratamento.
-É...
-O senhor tá com fome?
-Não, acho que não.
-O senhor sente fome?
-Claro.
-Mas fome não é dor?
-Cacete, não sei. Esse negócio às vezes me deixa muito confuso.
-Foi por isso que o senhor ficou doente. Ficou confuso, né?
-Não sei. Acho que sim. Posso ver TV com você?
-Claro. Quer dizer, acho que pode. Não me instruíram nada a respeito disso. Só que a novela acabou de acabar. Eu ia dar uma volta lá fora, vou todo dia depois da novela, dar um passeio.
-Lá fora?
-É. Quer ir?
Devagar, vou até a janela da sala. Olho para fora. Um lindo campo, as árvores e o vento dançando uma valsa.
-Não sei, faz tanto tempo.
-Vem, vai fazer bem pro senhor, tomar um ar fresco.
Ela me pega pelas mãos. Fecho os olhos. Balanço no seu passo, danço com ela, sinto sua mão. Seu toque é quase mais macio que seu sopro. Mantenho os olhos cerrados, flutuamos, tiro meus pés do chão, ela vai na frente e eu atrás, ela me conduz como uma pipa no céu.
-O senhor não vai abrir os olhos?
Abro. Estamos no campo. Lembro do passarinho. Acaba de anoitecer. Olho nos olhos dela, mas não estou lá. Me sinto encolhido. O vento tenta me derrubar, fico aflito. Cristina permanece forte, determinada, o vento lhe joga os cabelos na cara. Olho seu seio. De repente, ela grita.
-Ai, merda! Uma formiga me picou!
Saio correndo. Ela grita meu nome, mas não olho para trás, preciso chegar logo no quarto. Passo a sala, corro as escadas, entro no quarto, bato a porta e pulo na cama. Estou assustado. Depois de algum tempo, Cristina bate e entra.
-O senhor tá bem?
Permaneço calado.
-Olha, tá tudo bem, viu? Tá tudo bem.
A voz é mansa, acalanto.
-Não quero jantar hoje.
-Não sei... o senhor precisa comer.
-Só hoje. Não quero.
-Come só o pudim.
Olho seu seio.
-Não. Melhor não.
-Tudo bem... mas vou te trazer o remédio. O remédio o senhor tem que tomar.
Ela traz. O mesmo ritual. Finjo tomar, mas guardo tudo embaixo da língua. Ela sai, cuspo e dou ao passarinho. O passarinho está triste.
-Hoje eu fui lá fora. Lembrei de você. Você devia ir lá fora.
Ele permanece calado. Penso em soltá-lo, mas não quero ficar sem ele. Fico triste com isso. O quarto fica azul.
******************************************************************
Os dias se seguem. Nunca tomo o remédio. A cada dia, tudo muda em mim, oscilo entre a calmaria e o desespero. Nunca dor. Fico triste com frequência. Tristeza é um tipo de dor. Eu não deveria ficar triste. Talvez esse seja meu problema, não tenho dor, não estou completo. Tudo o que sinto não tem onde acabar. Sinto demais, mas errado. Sinto meus dentes um a um na boca. Sei onde eles começam e acabam, sem precisar tocá-los com a língua. Estranho. Os dias passam mais e mais. Cristina-enfermeira e seu contorno pela manhã, seu perfume, seio, sorriso, olhos e pupila. Cristina-enfermeira vê novela, às vezes penso em ver com ela, mas não quero mais sair do quarto. Cristina-doença me atormenta. Assisto Snoopy. O passarinho não canta há dois dias, mas continua azul. Cristina-enfermeira entra. Cantarola o Cravo e a Rosa. O Cravo teve um desmaio, a Rosa pôs-se a chorar. Cristina-doença está aqui. Abre a cortina, o corpo, a luz e o cheiro. O pão, o chá e a maçã. O remédio que não tomo. Cristina-enfermeira sorri. Dentes lindos. Me morde, Cristina-enfermeira, me morde. Passo algumas horas só com Cristina-doença, até o almoço, Cristina-enfermeira volta, começo a ficar confuso entre as Cristinas, me parecem iguais agora. Cristina-doença me dá o almoço. Sobremesa, pudim. Olho seu seio e como o pudim. Mordo o pudim, penso no seio. Cristina-enfermeira está aqui. Cristina-doença fala comigo, pergunta como estamos hoje.
-Estamos bem, eu e Cristina.
-Como?
-Eu e Cristina, estamos bem.
Ela não entende nada, deve estar confusa com as Cristinas também.
-O doutor vem lhe visitar essa semana.
Ela deve estar desconfiada. Percebe que há algo errado.
-Que dia ele vem?
-Não sei, mas vem essa semana.
-Ele usa branco, mas não é dentista.
Cristina sorri, sem graça. Deve estar com medo. Eu sinto medo, mas não medo da dor. Não faria sentido. Eu sinto medo do dentro. O dentro, o embaixo, o entre-os-braços. Eu sinto medo de estar nos olhos de Cristina quando ela fechá-los para dormir e ficar preso lá durante seu pesadelo. Talvez eu seja seu pesadelo, talvez ela seja o meu. Eu tenho medo de estar nos seus olhos quando ela morrer e ficar preso na morte dela.
- Cristina, o passarinho não canta mais.
- Vai ver ele não se sente mais só.
Ela sorri da própria piada. Deve se achar inteligente. Recolhe o prato do pudim. Olho seu seio, quero morder.
-Cristina, quero te morder.
-Quê?
-Nada.
-Eu ouvi.
-Meu pau tá duro, Cristina.
Cristina fica brava.
-Você anda cuspindo o remédio, né? Eu vou embora. Só vou esperar até o médico vir, ele já tá sabendo e vai trazer outra enfermeira.
-Meu pau tá duro, Cristina.
-Escroto!
-O escroto tá mole, Cristina. Esse não endurece.
Cristina sai e bate a porta. Começo a pensar que ela não voltará. Como pode um peixe vivo? Quero morder Cristina-seio-de-pudim. Começo a sentir medo de que ela vá embora, como poderei viver sem a tua companhia? Medo da solidão. É triste demais aqui só com uma Cristina. Eu nem lembro mais como era antes, como eram as manhãs sem o sol trazendo seu perfume e seu contorno, sem seu pudim, sem eu me ver nos seus olhos. Estou com medo. Sinto meus dentes, sinto onde cada um toca o outro, onde cada um se enterra na gengiva. Vou mandar vir um torturador pra ver se ele me salva. Faça seu serviço, eu direi. Me torture até eu sentir algo. Arranque meus dentes um a um, sem anestesia. Eu não sei o que fazer, ela não pode ir embora. Penso em pedir que fique. Enquanto penso, ouço um barulho.
POC.
Veio da gaiola. Cadê o passarinho? Levanto da cama e o vejo caído, duro e morto no chão da gaiola. Ele ainda é azul. O acolho nas mãos. Primeiro, penso que morreu de solidão. Depois, lembro dos remédios. Era isso, tentavam me matar. Era para eu estar morto. Filhas da puta, mataram meu passarinho. Atirei o pau no gato. Tenho raiva. Cristina sabia, filha da puta. Sinto meus dentes rangendo, vou morder Cristina até arrancar seu seio. Minha cabeça roda, ciranda cirandinha. Cristina entra no quarto com sua mala feita. Eu grito.
-Filha da puta! Você matou meu passarinho!
Jogo o passarinho morto nela.
-Você queria me matar! Eu é que vou te matar agora, filha da puta!
Ela corre. Sinto meus dentes. Ela desce a escada, tropeça, cai, levanta. Sinto meus caninos. Eu sou o dente. Talvez ela queira dançar. Estou logo atrás de você, Cristina, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, meia volta vamos dar. Ela vai para a cozinha, pega uma faca, eu chego, ela enfia a faca em mim, pega no braço. Não sinto porra nenhuma. Nada dói. Eu sou o anestesiado. Acerto um soco mal dado em Cristina, ela quase cai. Ainda tem a faca na mão, me acerta mais e mais, no rosto, no peito, nos braços, mas nada me detém, só sinto meus caninos, eu sou o dente. Mordo seu seio com toda a força que possuo, ela grita o grito do inferno, enfia-me a faca na cabeça, uma, duas, três vezes. Tudo é sangue, nada é dor, eu sou o anestesiado, eu sou o dente e a mordida. O anel que tu me destes, era vidro e se quebrou. Mordo mais e mais, vou arrancar-lhe o pudim. Sinto os dentes um a um no seio de Cristina, sinto o local exato onde eles tocam seu sangue. Mordo mais, quero chegar ao coração.
Então, tudo escurece. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
Sinto.
O primeiro lugar que dói é meu peito. Depois, a cabeça. Samba lelê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Solto Cristina, caio de joelhos. Ela corre casa afora e some no campo. Me arrasto, tudo dói. Agora eu sei. Sinto cada facada, cada corte. Onde está João pra me bater agora? Onde está Cristina? Começo a sorrir. Preciso contar a ela, pedir que me bata. Me arrasto pela casa, sentindo tudo. Abro uma porta, há uma escada, desço rolando até a garagem, me debatendo a cada degrau. Sinto cada pancada nas minhas costas. Com os olhos, encontro a caixa de ferramentas no balcão. Me arrasto até lá, estico o braço e a derrubo. Continuo rindo. Acho o alicate e arranco o primeiro dente. Grito. Arranco o segundo, e o terceiro. Um a um, arranco todos os dentes da boca. Penso em Cristina, penso no meu passarinho azul. Cristina, o contorno, o sol, o perfume, o seio, os dentes. Eu nos olhos de Cristina. Eu sou a dor, o sangue e a morte. Eu sou sangue-lúgubre, sou boca-sem-dente, sou febre, cuspe e fome. Ciranda cirandinha, sangue-peixe-vivo, água-fria, cravo, rosa, pau-no-gato, um bosque que se chama solidão, samba-lelê,
samba-lelê,
samba-lelê.
Eu sou a dor, estou vivo e Cristina me deixou. Eu sou Samba Lelê, cabeça quebrada.
Deito e fecho os olhos. Cristina está presa embaixo das minhas pálpebras. Dançamos colados, ela sopra meu ouvido. Seu sopro é brisa e seu toque é macio. Eu olho nos seus olhos, não precisamos dizer nada. Acima de nós, pássaros azuis cantam, não porque são pássarinhos, mas porque estão felizes.
Puta-minha.
inutilmente rascunhado por
fofolete
on quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Um idiota.
Como mais poderia me sentir? Ela era algo, enquanto dançava, e era minha. Me olhava, encarava, era meu ópio-dos-olhos, escorregadia e vulgar, era uma puta, mas era minha. Ela era dança, pernas e bunda, dorso, morte e vida, amor-meu, puta-minha. E eu era o escravo do instante, da noite, da observação, da saliva. Eu era escravo do beijo que trocamos há míseros vinte minutos. Vinte minutos, e o idiota aqui seria capaz de dar-lhe a vida. Eu a observei por uma ou duas horas. Ela me viu, provocou, esbarrou-me na pista, na fila do banheiro, no balcão do bar, tocou-me em um descuido mensurado. Desculpa. Claro, desculpo. Deixo cair vodka nela. Vodka, onde? Passo a língua em seu braço, onde a vodka caiu. Sempre fui dessas graças. Ela ri, gostosa. Conversamos, mas não lembro uma palavra. Estou bêbado, ela também, é só o que se nota. Palavras brotavam em lírios de sua boca e me embriagavam. Eu flutuava nas palavras. Eu flutuava na visão das suas pernas. Eram pernas longas, dessas que te abraçam. E em algum momento, ela é que deixa cair vodka no meu braço, e depois lambe. Da lambida no braço ao caminho do beijo, foi fácil. As bocas nos pescoços, as unhas nos corpos, a vodka caindo em toda pele, em qualquer parte. Por vinte ou trinta minutos eu fui pleno, e ali, na frente de todos, no balcão, quase nos comemos. Quero dançar. Dançar? É, dançar, vem. Ela me pega pelas mãos - como eu queria que fosse pelo pau - e me leva à pista, dançando, rebolando, flutuando, explodindo. Eu nunca fui muito de dançar, mas eu tentei. Ela riu, achou graça, eu ri. Ela riu mais, e de novo, e comecei a pensar que ela me achava ridículo ao invés de gracioso. Você me acha ridículo agora, pensava eu. Sua puta. Vou te foder na cama até você perder a graça. Puta-minha, eu te amo. Onde você vai? Vou buscar mais uma vodka. Ela foi, eu fiquei na pista, dessa vez ela não me levou pela mão, tão pouco pelo pau. Fiquei lá, bêbado-letargo, pensando: antes ela quis dançar, agora quis vodka, ela tá pensando que eu sou o quê? E eu, não bebo? Minha vodka também acabou, tô bêbado, e não pretendo ficar sóbrio. Então a vejo ali, alguns metros de mim, no pequeno palco perto do DJ, dançando com um sujeito, ela de costas pra ele, esfrega-se como uma puta, mas não a minha. E sorri um sorriso débil e lascivo, demoníaco, livre. Ela me vê. E ri mais ainda. Deixa o vestido cair do ombro. O sujeito a morde. A expressão dela é de prazer. Ela me olha. Um outro sujeito sobe no pequeno palco e ela fica no meio dos dois. E um terceiro logo se dispõe a juntar-se ao pequeno grupo de filhos da puta que ali se formava. O DJ vê tudo e faz uma transição na música, para outra mais alucinada, pesada, densa. Mais homens sobem, um a um, no palco, uma selva de faunos. Ela me olha pela última vez e some no meio deles, naquele mar de testosterona.
Como mais eu poderia me sentir?
Vou embora. Não olho para trás, tenho a sensação que se olhar, me transformarei numa estátua de sal. Na saída, pago, tonteio, tropeço, caio e me levantam. O senhor tá de carro? Tô sim. O senhor não vai dirigir assim, vai? Eu nem poderia, não sei onde parei o carro. Vou chamar um táxi pro senhor. Sabe, tá uma orgia lá dentro, você não imagina. Ah, imagino, sim, mas eu nem entro aí, a patroa me mata, ela sempre pergunta se eu fico mesmo só aqui de segurança e eu digo que sim, que não entro de jeito nenhum, sabe como é, né, doutor, a patroa é brava. Claro, sei como são as patroas. Olha, o táxi do senhor chegou. Sabe, eu não tenho patroa, eu tinha uma puta, mas ela se afogou. Entro no táxi. Pra onde? Pra casa. Onde é sua casa? Ih, fudeu. Ponho a cabeça pra fora do táxi e grito: onde é minha casa? Ouço a risada dos seguranças. Olha, espera aí, motorista, vou descer. Eu desço e grito que quero falar com aquela puta. Qué isso, doutor, vai dar trabalho agora? Começo a gritar que quero falar com aquela puta que me lambeu a vodka do braço, avanço para a porta, sou barrado, vou ao chão, o táxi vai embora, me levantam. Fica calmo, doutor. Eu vou ficar calmo quando falar com aquela puta. A puta da vodka. Ela é o que sua? Minha o quê? Doutor, ela é o que sua? Minha puta, já falei. Qual o nome dela? Nome? Não sei. Ela é sem-nome. Ela me pegou pelas mãos e me levou pra dançar. Vou ter que pedir para o senhor se retirar antes que cause mais confusão.
Então ela sai, sozinha, pela porta. Como mais eu poderia me sentir?
Ela me olha, eu me calo. Olho para o segurança e sussurro: é ela. Tá vendo, ela existe. A senhora conhece esse senhor? Conheço, é meu namorado. Me calo. Como assim? Ela me olha, eu olho, meu ópio-dos-olhos, eu sou o idiota, ela tem a expressão do cansaço e do álcool, sua alma em seu rosto, sua beleza na carne, sua carne de puta, uma puta é um paraíso, o paraíso é um desejo, o desejo é bruto como meu coração, meu coração é vasto e meu pau fica duro.
Triste e de pau duro. Não consigo me lembrar de nada pior que isso. Talvez triste e de pau mole.
Observo seu rosto, com tristeza. E ali, naquele momento, ela sabe que agora lhe pertenço, e só me resta torcer para que ela me poupe e não abuse do meu martírio de só por ela me saber ser.
abismo.
inutilmente rascunhado por
fofolete
on terça-feira, 4 de janeiro de 2011
éramos leves
transbordávamos os anjos
dançavamos sem pele
éramos um
respirávamos o outro
e bebíamos a febre
não somos mais nada.
sou o resto do amor
a casa vazia
a luz apagada.
sou o silêncio da dor
a falta de vida
a janela fechada.
sou o início do abismo.
sou o fim da alma.
transbordávamos os anjos
dançavamos sem pele
éramos um
respirávamos o outro
e bebíamos a febre
não somos mais nada.
sou o resto do amor
a casa vazia
a luz apagada.
sou o silêncio da dor
a falta de vida
a janela fechada.
sou o início do abismo.
sou o fim da alma.
almargeado
inutilmente rascunhado por
fofolete
on segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
lacerado e soterrado
sob os restos do teu nome
só me cabe ser ninguém
sem corpo, sem fome
sem sangue
serei sempre a parte
enquanto tu segues incólume
serei a sobra
o lamento do amor lasso
almargeado
a vida que some.
enquanto tu segues perene, intacta
eu sigo encetado
ferido
tu segues viva
eu-morto
privado do afago
olvido
tu segues lasciva
e eu, combalido,
desabo,
devastado e perdido.
tu és o fulgor do amor
e da dor
o desejo e a beleza
a boca e o seio
mas eu sou o ressentimento
a nódoa no teu peito
a água-viva
o extremo.
eu serei o abismo nascituro sob teus pés
que se abrirá passo-pós-passo
em ato-irascível
e te engolirá
no não-tempo.
eu serei teu ávido-algoz-áspero
a águia que dilacera teu fígado
teu nunca-alívio
teu sempre-tormento.
sob os restos do teu nome
só me cabe ser ninguém
sem corpo, sem fome
sem sangue
serei sempre a parte
enquanto tu segues incólume
serei a sobra
o lamento do amor lasso
almargeado
a vida que some.
enquanto tu segues perene, intacta
eu sigo encetado
ferido
tu segues viva
eu-morto
privado do afago
olvido
tu segues lasciva
e eu, combalido,
desabo,
devastado e perdido.
tu és o fulgor do amor
e da dor
o desejo e a beleza
a boca e o seio
mas eu sou o ressentimento
a nódoa no teu peito
a água-viva
o extremo.
eu serei o abismo nascituro sob teus pés
que se abrirá passo-pós-passo
em ato-irascível
e te engolirá
no não-tempo.
eu serei teu ávido-algoz-áspero
a águia que dilacera teu fígado
teu nunca-alívio
teu sempre-tormento.
longe-tão
inutilmente rascunhado por
fofolete
on domingo, 2 de janeiro de 2011
que essa dor me sirva
uma bebida
que decante os males
e me afogue,
líquida,
na distância.
que eu me perca no longe-tão
e não tenha pernas pra voltar,
nem cabeça.
que essa dor de ter sido
e não ser
me desfaça
até que eu não seja.
ice age coming (lábios de iceberg, cerveja e radiohead).
inutilmente rascunhado por
fofolete
on sábado, 1 de janeiro de 2011
///////////////////////////////////////////////////
estava calor, eu detestava isso, e sofria. mal-estar, desconforto e fadiga. eu estava bebendo também. a bebida e o calor me deixavam cada vez mais tonto. eu era carrossel, eu era vertigem, andava feito círculo que não se fecha e escorrega, zig-zag-bêbado-homem-cambalhota-em-queda-livre, caindo ao chão para encontrar-me com a sujeira, com os restos de cerveja, deixando lá em cima minha dignidade, que flutuava balão de hélio.
o porre era raro, fazia tempo que não bebia. das festas e baladas, só me restavam lembranças contorcidas e distorcidas; mas lá se iam anos sem sair de casa, me afogando em trabalho insano, trancado no alto do castelo, distante de todos, longe de mim não mil metros, mas mil toneladas, pois era preciso sair debaixo do peso que joguei sobre mim para alcançar algum resquício de dança e festa. mas agora eu voltara, tão triunfante em meu tapete voador que me estenderam um outro vermelho, para que eu caminhasse acenando aos fãs das minhas bêbadas palhaçadas, que aguardavam ansiosos o primeiro gole, o primeiro grito, a primeira dança e a primeira queda proposital, daquelas que só eu maestrava, com a genialidade de um palhaço em seu esplendor, fingindo tropeços e enrolar de pés, e caindo, afinal, feito bosta mole, elefante abatido, búfalo frouxo, bigorna de dezesseis toneladas.
eu já não era o mesmo, os anos me afetaram. já não tinha a coragem de atirar-me das escadas, de jogar-me no chão, como fazia antes. tudo em favor do riso. essa queda-homem-cambalhota que eu acabara de sofrer não fora proposital, e sim resultado da soma de três ou quatro tipos de bebidas, denominador da minha embriaguez; a ordem dos pés alterou o resultado.
e havia um detalhe: os amigos já não eram os de outra hora. não havia a mesma graça, os mesmos sorrisos, a mesma fraternidade, e os risos que ouvi eram cretinos. fiquei ali, pensando se lambia ou não a cerveja do chão, esperando meus olhos em "looping" pararem de rodar.
vamos logo, diziam, vambora, tão esperando a gente, levanta, seu bêbado do caralho, porra, deixa ele aí, vai tomar no seu cu, levanta, porra, ah, vão todos se fuder, me deixem aqui, ah, levanta, porra, a gente tá indo, você não vai? tomar nos seus cus.
se afastaram, me deixando em silêncio.
e foi aí que senti a mão gelada no meu ombro. eu me perguntei se ela teria dona, tão delicada, mas tão delicada, que nem precisava ter dona, já se bastava em si; não precisava de olhos, de orelhas, de corpo, de bunda, só a mão - tão delicada - já se iniciava e se encerrava, completa. e a mão ficou lá por eternos cinco segundos, e então a mão falou.
-ô, meu, te sacanearam? quer ajuda pra levantar? cê tá bem?
uma voz fina, mas levemente rouca de balada, doce de maracujá que não enjoa.
-vai, levanta, eu te ajudo.
e a mão e a voz - que eu já acreditava serem duas entidades separadas, pois seria injusto duas coisas tão belas unir-se em uma existência só - me ajudaram a levantar. mas antes, foi preciso me virar, e vi os cabelos pretos e longos, os seios tão corretos no seu formato que dispensariam qualquer aula de geometria ou física por toda uma vida ginasial; a camiseta preta do Radiohead, a delicadeza fincada nos olhos densos, as pernas convidativas e tudo o que havia ali, flutuando.
-porra, cê tá mal, hein? vem, eu te ajudo a levantar.
eu me apoiei nela, senti seu braço gelado e seu ombro macio, sensações tão boas que me arrancariam fácil um "eu te amo", mas antes que eu explodisse em ridículo, todas as leis da física nos lembraram que um anjo não agüenta um demônio: as asas quebraram, as penas voaram, e ao invés d’eu levantar, ela tombou comigo.
caímos na gargalhada. inspirado por sua risada, tomei fôlego e levantei. logo em seguida a segurei pela mão (ah, a mão gelada...), e a puxei. ela limpou a bunda com tapas leves e eu me limpei todo, estava completamente sujo.
-vem cá - disse ela - tá sujo aqui.
e para me limpar deu tapas leves na minha bunda. quase gritei "MAIS FORTE, MAIS FORTE", mas me contive, embora tenha exigido um grau razoável de concentração para fazer meu sangue empurrar o álcool para algum lugar, a fim de não cometer um ato só digno dos maiores e mais vergonhosos bêbados.
-pô, brigado, tava foda...
-cê tá bêbado pra caralho, né, meu?
-ah, nem tanto, já fiquei pior.
-pior?
-é, precisaram chamar um engenheiro e um guindaste para me levantar.
risos.
-e aí? eu vi teus amigos indo embora.
-amigo de cu é rola, bando de filhos da puta (mais risos). e você, tá sozinha?
-ah, eu tô indo ali, ó.
ela aponta o mercado 24 horas na esquina. tem muita gente. me convida para ir junto, mas tenho certo receio do meu estado e muitas coisas passam pela minha cabeça em alguns segundos. melhor parar por aqui, vai dar merda depois. "ah, acho melhor eu ir embora", "ah, qué isso, vamo lá comer alguma coisa", e toca meu braço.
a mão gelada me convence.
fomos. eu andando, ela flutuando.
chegando, ela me apresenta alguns amigos, eram cinco ou seis, uns três caras, umas duas meninas, não presto muita atenção. os amigos eram engraçados, embora idiotas, todos flertavam muito uns com os outros e comigo, era uma putaria do cacete, coisa que só gente bêbada faz, e isso tudo contribuiu para que a noite se alongasse para a casa de um deles. ficava cada vez mais fácil flertar com ela.
armados com mais cerveja que compramos no mercado, nos dividimos em dois carros: eu, ela e mais uma amiga fomos no meu, o resto, no carro de um deles.
liguei o som e coloquei um cd, Radiohead.
-puta merda, eu amo radiohead, disse ela.
-foooooooooda, disse a menina que veio conosco, que tinha o cabelo curto e verde de planta cheia de clorofila.
-põe foda nisso.
"everything in its right place" íamos cantando, entre outras, como "idioteque", todos bêbados, eu dirigindo devagar, e ainda assim só consegui dirigir porque havia comido algo no mercado e cortado um pouco do efeito do álcool, e eu ia muito devagar mesmo, não sei se pela bebedeira ou se para prolongar a viagem e poder ouvir mais radiohead com ela, com medo do nosso destino, who's in a bunker, who's in a bunker, woman and children first, womam and children first, woman and children...
chegamos. a cabelo verde sai pela porta de trás e antes que eu me movimentasse, aquelas mãos - ah, puta merda - tocaram minha coxa, me segurando para eu não sair do carro, AI, CARALHO, toca Radiohead, toca, ice age coming, ICE AGE COMING, let me hear both sides, let me hear both sides... e eu voltei, e seus lábios tocaram os meus, e as mãos não eram nada perto da boca, os lábios de iceberg, o gelo descendo pela minha garganta e percorrendo todo o meu corpo, me arrepiando inteiro, apaixonado-titanic, sabendo que aquilo ia dar em merda muito grande, e os lábios carnudos, mas não tanto, na medida certa, mas sempre gelados, e a língua dela na minha, this is really happening, this is really happening... todo o mal-estar do calor ia embora, eu só queria aqueles lábios gelados que tanto me aliviavam.
putaquepariu.
ficamos no carro um bom tempo, sem dizer uma palavra e então ela sugeriu nos juntarmos aos outros.
ao chegarmos, os outros ouviam uma merda qualquer dos anos 80, e eu mal os enxergava, estava embriagado da minha garota, o resto era só silhueta, fagulha, não era nada. ao que parecia, também estavam drogados, a de cabelo verde parecia estar pior, mas só assim mesmo pra ouvir aquela merda de música. sentamos no chão e eu perguntei se ela não preferia ir mesmo a outro lugar.
-onde?
-pra igreja, casar.
ela riu da minha piada ruim. não sei se isso era um bom ou mal sinal. só me restava beijá-la de novo, suprimindo o espaço para que ela não percebesse o quanto eu era um palerma.
continuamos os beijos e eu já tinha construído meu iglú, já conhecia os esquimós pelos nomes e já alimentava os ursos polares pela mão. ela levantou e me levou para um quarto. eu sem saber o que fazer, ela me guiando. quando a porta ia se fechar, alguém gritou.
-PORRA! A CLARA!
ela correu para a sala. clara era o nome da cabelos verdes, a menina que parecia fazer fotossíntese. e foi grito para tudo quanto é lado, a clara vomitando, "ela vai morrer", não, não vai, "mas é overdose!" OVERDOSE DO QUÊ, PORRA? caralho, e a clara era a irmã mais nova da lábios de iceberg, eu nem sabia, e eu - me vendo obrigado a deixar tudo aquilo de lado - fiz o papel que me cabia entre aquele bando de paspalhos e esqueci a mão gelada, os lábios de iceberg - e também minha bebedeira - e prontamente me tornei o responsável, o adulto - que há pouco era o homem-cambalhota que lambia o chão da rua - e perguntei o que ela tinha bebido, comido, fumado, enfiado no rabo, cagado ou sei lá o quê, porque a menina não párava de vomitar e engasgar, já praticamente inconsciente.
me vi, algum tempo depois, no hospital com minha garota no colo, esperando a estúpida da irmã de cabelos verdes tomar remédios ou sei lá o quê, porque havia misturado coisas que não devia, mas estava bem agora.
-putz, brigada, se não fosse você... o bando de maluco ia só ficar gritando… você que resolveu tudo, que desespero, meu…
é, eu era o herói, e minha medalha repousava sobre meu colo, não havia mais clima para beijo, para o quarto, para o carro, para nada, mas ela repousava a cabeça tão doce no meu colo que eu poderia ficar ali séculos, e por mim poderiam vir todas as irmãs dela, uma a uma se desmanchando, para prolongar o colo e o carinho.
ela me contou da família, da vida, da irmã - "minha mãe não pode ver o estado dela, temos que esperar" - e enquanto contava, ainda com a cabeça no meu colo, suas mãos passeavam meu pescoço, seus carinhos corriam meu corpo, me gelando parte por parte, e assim que ela gelava um braço, ia para o outro, enquanto o anterior já derretia, mas logo ela voltava para congelá-lo de novo, e dançamos assim, sentados, refrescados, isolados de todo o mal que havia lá fora, em nosso novo castelo de gelo.
ficamos horas e horas, e eu não queria pensar em mais nada, só em continuar passando meus dedos naqueles lábios de iceberg, torcendo para que a previsão do tempo fosse abaixo de zero, para que nada se derretesse em minhas mãos, rezando por uma nova era glacial.
ice age coming, ice age coming.
Entre solitárias e catoblepas.
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fofolete
on sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
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Nos últimos tempos, visitei o Grande Precipício da Alma. Fiquei lá um tempo, digerindo a grande frustração pessoal-musical que me tomou de supetão. Grande frustração por nunca poder me dedicar à Música o quanto quero. Nestes momentos, me torno um campo aberto, um pedaço de carne exposto aos vermes, um terreno propício para qualquer angústia florescer meio ao adubo.
Depois de ler um livro do Mario Vargas Llosa e agora lendo seus textos teóricos, constato, com certa revolta comigo mesmo (que inevitavelmente converte-se em frustração), que eu poderia e deveria ter me dedicado mais às formas de arte e criação que aprecio desde cedo. Por desvios inerentes à vida, nunca fui até onde poderia ter ido na Música ou na Literatura. E agora, aos 33, a sensação de perda torna-se assombrosamente presente. Principalmente porque os desvios não são pretexto; daí a revolta. Afinal, "pra quem está perdido, qualquer desvio é caminho". Mas eu não os fiz caminhos, os fiz desencontros. Me resta buscar nesse enorme desvio-descaminho, minha matéria prima.
Enfim.
Dois textos do Llosa são ótimos: "A Parábola da Solitária" e "O Catoblepas", ambos de "Cartas a Um Jovem Escritor". O primeiro trata mais da dedicação ao ofício de escrever. O segundo, do processo complexo da origem das histórias contadas por quem escreve. Os dois textos me falaram muito, e me cabem não só em relação à Literatura, mas também à Música, ou qualquer arte, qualquer criação, qualquer coisa. Procurei o texto na íntegra na internet para colocá-lo aqui, mas não encontrei.
Enfim.
Ser um catoblepas. Engolir uma solitária.
grande henry chinaski.
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fofolete
on quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
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"Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma" - Charles Bukowski
dá-lhe, groucho.
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fofolete
on quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
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"É claro que acredito em vida inteligente fora da Terra, só não acredito em vida inteligente, aqui, na Terra"
Groucho Marx.
Groucho Marx.
disk amizade.
inutilmente rascunhado por
fofolete
on terça-feira, 28 de dezembro de 2010
/
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-oi.
-oi, tudo bem.
-tudo.
-o que você deseja?
-eu desejo fazer um amigo, aí não é o disk amizade?
-é, sim senhor.
-você vai ser minha amiga?
-não posso, senhor. atendi o telefone sem querer, estava só passando.
-você pode me chamar de amigo?
-senhor, desculpe, me sinto desconfortável com a situação.
-mas aí é o disk amizade, não é?
-é, sim senhor.
-então.
-mas eu estava só passando, estava indo buscar meu lanche.
-o que você vai comer?
-não sei, parei aqui pra atender o telefone.
-e você estava vindo de onde pra buscar o lanche?
-eu vinha do disk sexo, senhor.
-disk sexo?
-sim, senhor.
-quer dizer que você pode fazer sexo mas não pode ser minha amiga?
-isso, senhor.
-então podemos fazer sexo?
-infelizmente não, senhor.
-mas como não?
-é que o senhor ligou para o disk amizade.
-mas você é do disk sexo.
-mas eu só atendi porque não havia ninguém aqui.
-não haviam amigos, né?
-não, senhor.
-pra onde foram os amigos?
-devem ter ido buscar um lanche.
-e aí você atendeu, né? mas que tipo de putaria é essa?
-me desculpe, senhor, como assim?
-vocês ficam atendendo o telefone do outro, porra?
-desculpe, senhor, é o hábito.
-hábito de cu é rola, eu não liguei para o disk casa da mãe joana, eu só quero um amigo.
-eu não tenho treinamento para ser uma amiga, senhor.
-mas que cacete de disk amigo você trabalha!
-eu sou do disk sexo, senhor.
-então quero fazer sexo.
-senhor, eu ja expliquei... o senhor ligou para o disk amizade.
-qual o problema de misturar amizade e sexo? hein?
-nenhum problema, senhor, é só uma questão burocrática.
-então você não vai nem me fazer uma chupetinha?
-não, senhor.
-nem ser minha amiga?
-não, senhor.
-ô, merda, hein.
-pois é, senhor.
-mas escuta... que lanche você vai comer?
-oi, tudo bem.
-tudo.
-o que você deseja?
-eu desejo fazer um amigo, aí não é o disk amizade?
-é, sim senhor.
-você vai ser minha amiga?
-não posso, senhor. atendi o telefone sem querer, estava só passando.
-você pode me chamar de amigo?
-senhor, desculpe, me sinto desconfortável com a situação.
-mas aí é o disk amizade, não é?
-é, sim senhor.
-então.
-mas eu estava só passando, estava indo buscar meu lanche.
-o que você vai comer?
-não sei, parei aqui pra atender o telefone.
-e você estava vindo de onde pra buscar o lanche?
-eu vinha do disk sexo, senhor.
-disk sexo?
-sim, senhor.
-quer dizer que você pode fazer sexo mas não pode ser minha amiga?
-isso, senhor.
-então podemos fazer sexo?
-infelizmente não, senhor.
-mas como não?
-é que o senhor ligou para o disk amizade.
-mas você é do disk sexo.
-mas eu só atendi porque não havia ninguém aqui.
-não haviam amigos, né?
-não, senhor.
-pra onde foram os amigos?
-devem ter ido buscar um lanche.
-e aí você atendeu, né? mas que tipo de putaria é essa?
-me desculpe, senhor, como assim?
-vocês ficam atendendo o telefone do outro, porra?
-desculpe, senhor, é o hábito.
-hábito de cu é rola, eu não liguei para o disk casa da mãe joana, eu só quero um amigo.
-eu não tenho treinamento para ser uma amiga, senhor.
-mas que cacete de disk amigo você trabalha!
-eu sou do disk sexo, senhor.
-então quero fazer sexo.
-senhor, eu ja expliquei... o senhor ligou para o disk amizade.
-qual o problema de misturar amizade e sexo? hein?
-nenhum problema, senhor, é só uma questão burocrática.
-então você não vai nem me fazer uma chupetinha?
-não, senhor.
-nem ser minha amiga?
-não, senhor.
-ô, merda, hein.
-pois é, senhor.
-mas escuta... que lanche você vai comer?
O pior do mundo.
inutilmente rascunhado por
fofolete
on segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
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O mundo é algo entre o asco e o escarro, habitado por sacos de merda que nascem, crescem e morrem na mediocridade. Alguns enfiados em roupas de escritório e alguns com as roupas de escritório enfiadas no cu. Carreiras bem sucedidas, é o mundo moderno, não há tempo para preguiça, você tem que ser útil, rapaz, você tem que ser útil.
Não eu.
Eu sou um inútil. Se o mundo é algo entre o asco e o escarro, eu nem mesmo fui cuspido. Transito no escuro e durmo em espeluncas que - com muita sorte - cheiram à urina. Eu não serei útil, não nesse mundo.
Naqueles tempos eu me enrolava com Maria. Nome de santa. Trepava como se fosse a última vez na vida. Não, não era bonita. O dinheiro começou a faltar e ela reclamava que não ia mais poder pagar casa e comida sozinha, "teu pau não vale tanto assim", dizia. Ela é que nos sustentava. Gostava um bocado de mim - devia gostar - pra sustentar um vagabundo assim. Mas com o tempo, a gente teve que escolher entre comprar cervejas ou pílulas anticoncepcionais. Maria engravidou.
-Tira fora - eu disse.
-Não tenho dinheiro, custa caro fazer essas coisas - respondeu seca.
-Tem uns jeitos baratos, dá pra fazer um lance com umas agulhas de tricô.
-Olha, se você acha que eu vou enfiar uma agulha na minha buceta, tá muito enganado!
-Por que a paranóia? Aposto que você já enfiou coisas bem maiores aí dentro.
-É, mas com certeza não foi seu pau.
Depois de dois dias finalmente descobri que ela queria ter o filho. Eu realmente tenho que dar o braço a torcer : Maria sabia o que queria. Eu procurava não me preocupar com os porquês da Maria. Basicamente era assim que eu vivia, sem me preocupar. Não tenho ruga nenhuma. Também não tenho dinheiro, não tenho roupas, não tenho nada, mas não tenho ruga nenhuma. Minha testa é lisa como bunda de nenê. Me deixem em paz, eu não perturbo.
-Eu quero o filho, disse ela
-Olha, sei que sou o homem perfeito, mas você encontra outro pra ser o pai dos seus filhos.
-Não tem nada a ver com você...Não precisa se preocupar, eu te conheço. Pode sumir se quiser.
Claro que eu ia sumir. Mas mesmo assim me preocupava deixar um rastro no mundo. Já tem gente demais aqui. Devíamos praticar apenas sexo oral e anal. Sem riscos de deixar rastro. Seria uma maravilha. Um dia, não haveria mais ninguém no mundo, seria o fim da era dos sacos de merda. O fim da humanidade seria causado pelo sexo anal. Talvez só sobrassem as baratas, afinal, dizem que apenas elas resistiriam ao fim do mundo.
-Maria, você não vai ter dinheiro pra sustentar EU e mais um filho.
Maria me olhou com ódio. Às vezes eu vou longe demais. Os dias se passaram. Quer ter o filho? Tenha. Não me mande notícias, vou estar bêbado demais pra entender que tem alguém andando por aí com o mesmo DNA que o meu. Se um dia eu precisar de uma medula, mando avisar. O meu plano brilhante era aproveitar o máximo a hospitalidade de Maria, até a barriga dela começar a crescer e eu sumir. Mas as coisas começaram a piorar. Depois de uma semana ela apareceu com um monte de fraldas e roupas, chocalhinhos e esse tipo de coisa.
-Maria, me dá dinheiro pra cerveja.
-Não tenho.
-Mas você não quer cerveja?
-Vou parar de beber, não é bom pro bebê.
-Se é meu filho, eu duvido que ele ache bom ficar sem beber. Me dá o dinheiro que minha garganta tá seca pra caralho.
-Daqui pra frente, VOCÊ compra sua cerveja, “querido”.
-Porra, Maria, você não me ama?
-Não.
-Porra, você tá gastando todo o nosso dinheiro com umas merdas de fraldas que só vai usar daqui a nove meses. Caralho, que merda você pensa que tá fazendo? Se me quer aqui, me dá cerveja! Se não quer, fala logo e eu sumo! O que eu acho uma merda é ficar nessa bosta sem cerveja.
-Então some – disse, numa serenidade tão macia e cheia de certeza que me deu até sono.
Normal. Não peguei minha coisas, até porque não tinha muitas, a não ser as que ela me deu. Me calei e fui dar uma mijada. Fui só me despedir. Pensei até em dar uma última trepada, não custava nada, eu não sou de guardar ressentimentos.
-Tchau, Maria – dei um beijo e apertei sua bunda.
- Não - disse se afastando – é melhor você ir logo. Você já tá me dando nojo.
Me afastei.
-Você fez um filho e não tá nem aí.
-Olha, Maria, eu avisei que tava pouco me fodendo e você disse que era responsabilidade sua.
-Eu sei, mas eu esperava mais de você. Você não quis nem saber que nome eu vou dar pra ele. Depois, daqui a vinte anos, você seria capaz de encontrar seu filho e nem saber.
-Nome? Já tem nome? Cê nem sabe se é menino ou menina!
-Vai ser menino, eu sei. E vai se chamar Jesus.
Oh oh, pensei. Jesus. Filho de Maria.
-Então quem eu sou? João? Ou foi José? Quem é o pai de Jesus mesmo? Eu nunca fui bom nesse negócio de Bíblia…Não, claro que não. Esqueci: eu sou Deus.
-Você me enoja, seu bosta, você é um merda! UM MERDA! SOME! COMO EU ME ODEIO POR TER PERDIDO TEMPO COM VOCÊ! SEU BOSTA!
-Sim, amor, eu sou. E você é pior que eu , porque só conseguiu ter um filho com um bosta, e teu filho tá fadado a ser um bosta, mesmo eu sendo Deus.
-FILHO DA PUTA!
Maria avançou em mim aos tapas. As unhas me machucavam o rosto. Eu apenas me esquivava. Ela acertou muitos na minha cara até eu revidar, foi inevitável, ela estava descontrolada. Desci um tapa em sua cara. Maria parou o escândalo. Me olhou, os olhos cheios de raiva e alguma surpresa. Foi pra cozinha. Voltou com uma faca. Avançou. Eu me esquivei. Avançou de novo. Os olhos já não tinham raiva, apenas uma tranqüilidade de quem sabe que fará um bem ao mundo. Avançou pela terceira vez, pegou meu braço, uma risca de sangue. Ardeu. E de novo, outro risca. Quando avançou novamente em direção à garganta, foi impossível não me defender, e a empurrei para parede, usando seu próprio impulso. Ela ainda virou e levantou a mão, a faca um só brilho no ar. Dei-lhe um soco. Ela cambaleou e tropeçou na escada. Rolou feito uma bola de merda seca. O barulho dela caindo foi agonizante. Degrau a degrau, parecia que nunca acabaria. Uma escada sem fim. Ao final de cada degrau, surgiria um novo. Degraus brotariam do chão e prolongariam a queda. Aquilo não acabava, uma tortura.
Enfim, o silêncio.
Fui até o topo da escada. Lá estava ela, caída na sala, toda retorcida. Desci. Ela ainda respirava, estava bem, ia sobreviver. Mas provavelmente o moleque já tinha ido pro saco. Sentei ao lado dela e tentei pensar no que fazer. Pensei em hospitais, em polícia e em cerveja. Mas só o pensamento da cerveja permaneceu. Aquilo tudo fez eu me sentir muito mal: era a constatação definitiva de que eu era um inútil. Do jeito que as coisas caminhavam, eu acabaria sozinho. Ou talvez apenas com uma barata para me fazer companhia. Eu, a barata, e um bocado de cerveja. Juntos, até o fim do mundo.
Maria abriu os olhos lentamente. Fez muito esforço pra dizer algo, mas eu não escutava os sussurros. Cheguei com o ouvido perto da sua boca e ouvi, bem baixinho:
-Filho da puta…meu filho… filho da puta…
-Desculpa, não entendi... seu filho é um filho da puta? O que que a Madalena tem a ver com isso?
-Seu bosta…
-Bom, Maria, pelo menos você não precisou enfiar uma agulha na buceta.
Levantei e fui embora, procurar uma cerveja gelada. No caminho, esmaguei uma barata: ficarei só, aqui ou no fim do mundo.
amanhã não tem chuva que limpe.
inutilmente rascunhado por
fofolete
on domingo, 26 de dezembro de 2010

No começo, foi o beijo
A salivaA lambida
A dança das língüas
Mas a minha, tímida e ínsipida
Se escondia hirta
Atrás dos dentes tortos.
Depois, foram os corpos
Despidos e desnudos
Desprotegidos do abraço do escuro
Livres e frágeis, alvos
Perfeitos pro abate.
Eretos pedaços de carne.
Despidos e desnudos
Desprotegidos do abraço do escuro
Livres e frágeis, alvos
Perfeitos pro abate.
Eretos pedaços de carne.
Então aprendi a dança dos corpos
Tomei todos os lábios ao meu alcance
Todo o sangue
E deixei em cada um deles a minha vida
Que, uma vez extraída,
Em mim reverberava em morte.
E a fome, sempre a fome.
Insistente, latente e viva; ela sempre:
A fome.
Um dia, ela surgiu de um algodão doce,
Esplandeceu
E, voando, tomou meu corpo e me arrebatou.
Carregava uma cabeça de criança
Se vestia de açucar
E cantava vinho.
Me olhava como se eu fosse uma nuvem perdida no céu em forma de homem.
Me vestiu feito fantasia
Me tomou feito leite
Me engoliu o dedo
Me descobriu o tato
Me tomou o falo
E lavou, na saliva, o meu medo.
Engoliu as feridas e cospiu meus ossos.
Se satisfez.
Depois,
Partiu na neblina e me deixou na embriaguez.
Idiota, eu sorri.
Todo o sangue
E deixei em cada um deles a minha vida
Que, uma vez extraída,
Em mim reverberava em morte.
E a fome, sempre a fome.
Insistente, latente e viva; ela sempre:
A fome.
Um dia, ela surgiu de um algodão doce,
Esplandeceu
E, voando, tomou meu corpo e me arrebatou.
Carregava uma cabeça de criança
Se vestia de açucar
E cantava vinho.
Me olhava como se eu fosse uma nuvem perdida no céu em forma de homem.
Me vestiu feito fantasia
Me tomou feito leite
Me engoliu o dedo
Me descobriu o tato
Me tomou o falo
E lavou, na saliva, o meu medo.
Engoliu as feridas e cospiu meus ossos.
Se satisfez.
Depois,
Partiu na neblina e me deixou na embriaguez.
Idiota, eu sorri.
psiu.
inutilmente rascunhado por
fofolete
on sábado, 25 de dezembro de 2010
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Comments: (0)
"na madrugada a vitrola rolando, tocando B.B King sem parar".
eu não sei quem fez esse catzo de caraléo de música, mas aqui no bar do lado do meu escritório, não bastasse a banda estar tocando esta digníssma obra-prima, o bar inteiro - e muitas pessoas na rua também - cantam essa obra do inferno, ecoando por todo o bairro que a porra do catzo dessa merda de vitrola da casa do caralho vai tocar B.B King até o cú da égua fazer uma porra dum bico filho da puta do cacete.
APA.
APAPUTAQUEOPARIU.
nessas horas em que me torno um velho de bengala - mas de bom gosto - é que me pergunto: cadê o PSIU?
ah, vá.

